Confesso certa dificuldade para compreender a comoção dos últimos dias em torno do assassinato do cão nas dependências do Carrefour de Osasco.
Trata-se, evidentemente, de um crime inominável - cuja crueldade ressoa ainda mais forte ante a inocência e a passividade da vítima. Possivelmente o cãozinho atendeu ao chamado do agressor, certo de que ganharia afagos ou, o que mais lhe interessava, um bocado das delícias culinárias que por ali são abundantes e com as quais às vezes era premiado. Como poderia suspeitar que a mão estendida pretendia matá-lo?
O que soa paradoxal no caso é a reação de uma sociedade que, cerca de dois meses atrás, nas eleições gerais, abraçou alegremente candidatos apologistas da violência. Para o executivo estadual, São Paulo elegeu um político cuja proposta para a segurança pública foi sintetizada na ameaça de que as polícias passariam a "atirar para matar". Também para governo do Estado, o Rio de Janeiro elegeu um ex-juiz que fez campanha afirmando que a polícia iria "mirar na cabecinha" e pum! No plano federal, foi eleito outro político que, desde a cama do hospital, onde se recuperava de ataque violento sofrido durante a campanha, cumprimentou seus eleitores simulando tiros.
Na cultura de violência na qual estamos mergulhados, em que basta proferir discursos de extermínio para serem transformados em heróis, pouco importa os 60 mil homicídios que ocorrem anualmente no país. Pouco importa a ocorrência de chacinas, como em Mogi das Cruzes entre 2013 e 2015, nas quais jovens foram sumariamente executados sem qualquer motivação, além do fato de terem sido avistados pelos matadores. (Recomendo o ótimo livro "Caputera: Chacinas em Mogi das Cruzes", de Renan Omura). Não importa, pois são apenas seres humanos.
A sociedade, que dá audiência a programas de TV especializados em explorar a dor e as desgraças alheias, não devia se chocar com a brutalidade de um agente de segurança que quis apenas mostrar serviço.