Como indivíduo do meu tempo consegui superar as certezas construídas pelas formações simbólicas do que a sociedade tem de tradicional, permitindo-me estar entregue ao desamparo, sob um clima de criação que nunca acaba.
Assim, sou, cada vez mais, obrigado a me tornar escritor de mim mesmo, passando a me valer da fratura de vadias emoções, que teimam capitanear este atávico elo de relação com a figura paterna, para sempre perdida, e que nenhuma transcendência religiosa consegue superar.
Com a munição que só a experiência válida concede, tenho passado, então, a garimpar formas de desenvolver sadia relação de fraternidade com todos os demais convivas de sina similar, dando novo sentido à minha vida, na medida em que passo a me identificar com o cenário, os personagens e, até mesmo, com os autores reais ou imaginários de parte das obras que me são oferecidas para degustar.
Para que não reste a menor dúvida: assim seja a poesia procurada! Como que lapidada pela acidez dos deveres da intenção. Penetrada pelo suor e pela fumaça, cheirando a lixo e a açucena salpicada pela diversidade de qualquer profissão. Exercida dentro e fora da lei. Com visual vergonhoso: manchas, pregas, arrepios, vigílias, observações, negações, sonhos, profecias, afirmações, dúvidas, declarações de amor e de ódio, idílios, credos políticos. E impostos, porque não, sob o guarda-chuva de nada solerte inspiração!
Para os que dela se valem, a poesia é, dentre as formas de criação literária, a que talvez melhor expresse a realidade do autor, levando o leitor ao estabelecimento de uma relação de identificação com esta realidade. Em outras palavras, a poesia leva o leitor a habitar o mundo fantástico criado pelo poeta. Ao contrário do romance, na poesia o leitor choca-se com os afetos que dão suporte a esse mundo, uma vez que, nessa modalidade de criação literária, os personagens não possuem o papel de mediação simbólica que praticam num romance. Na poesia, essa mediação é feita pelo próprio autor e os devaneios que se manifestam em sua obra.