As primeiras propostas sobre a composição dos ministérios no governo de Jair Bolsonaro (PSL) são, no mínimo, questionáveis. Há uma contradição na tese sobre a escolha do primeiro escalão. O presidente eleito afirma que só será nomeado ministro quem possuir qualidade técnica para exercer o ofício. Nesse ponto, a lógica do capitão reformado parece coerente ao priorizar a formação e o traquejo no assunto.
A contradição começa quando Bolsonaro afirma que pretende reduzir o quadro de ministérios, fundindo alguns e extinguindo outros. A ideia inicial é limitar em 15 o número de pastas em vez das 29 atuais. Nessa linha de raciocínio, a decisão é política e não técnica, numa profunda demonstração de falta de conhecimento e de pouca percepção aos movimentos internacionais. Fechar os olhos para a globalização e impor um modelo caseiro de administração não parece um bom caminho.
Um exemplo disso é a proposta de unificar os ministérios de Meio Ambiente e da Agricultura. São campos completamente distintos e que hoje possuem vida própria, independente e autônoma, seja na rotina de atividades administrativas e regulamentares, quanto na captação de verbas e definição de programas. As dimensões geográficas do país exigem tratamento diferenciado para questões iguais, mas realizadas em pontos distantes e em regiões com características climáticas divergentes. Ontem à tarde, entretanto, Bolsonaro já declarou que essa fusão deve ser descartada.
Outra proposta que está gerando polêmica é a transferência das questões relacionadas ao Ensino Superior do Ministério da Educação para o de Ciência e Tecnologia. Causa estranheza retirar uma atribuição que faz parte de um conjunto sequencial e colocá-la em outro setor. Separar a Educação Básica da Superior poderia interromper um ciclo que deve ser planejado de forma integrada. Resta também a dúvida de como esses ministérios seriam compostos a partir da destinação de verbas, já que muitos possuem orçamentos limitados por lei. O que está sendo anunciado como modernidade no governo Bolsonaro pode representar anos de retrocesso.