Existe ainda no Brasil a cultura masculina de que parte da culpa de um crime de estupro deve ser da vítima, ou seja, a mulher. Não é raro ouvir em conversas de amigos que se a mulher está com uma roupa mais curta, "está pedindo para ser estuprada". Esse tipo de afirmação, calcada em psicologia de boteco, não encontra respaldo na Justiça ou na Sociologia. Mulheres às vezes saem com roupa mais curta porque querem sair assim, é o direito delas.
O assunto veio à tona, novamente, após o bárbaro crime que vitimou a estudante Rayane Paulino Alves, de 16 anos, estrangulada há duas semanas com o cadarço do próprio calçado que usava. Vale lembrar que o principal suspeito da morte da jovem, o segurança Michel Flor Silva, 28, está preso.
Ainda é preciso a confirmação de exames, no entanto, existe a possibilidade de a estudante ter sido violentada sexualmente. Rayane voltava de uma festa e, ao que tudo indica, estava sob efeito de álcool, e acabou sendo presa fácil para uma mente doentia.
É possível ver a grande diferença de atitude entre o motorista de aplicativo, que a levou para um lugar seguro e iluminado, a rodoviária de Guararema; e o assassino, que se aproveitou do momento vulnerável da moça.
A informação descabida de que a culpa também pode ser atribuída à vítima não faz o menor sentido, não importa o momento ou o estado em que ela se encontrava. Em nenhum minuto, na violência sexual, a mulher pede para ser estuprada, em nenhum momento ela diz, mesmo que com a maneira de vestir ou se portar, que está disposta a ser violentada, e isso tem que acabar, não há salvo conduto para o agressor acreditar que, por estar vestindo determinado tipo de roupa, ela deva ser abusada sexualmente.
Guardadas as proporções, é o mesmo que dizer que uma pessoa que está falando ao celular na rua, ou no transporte público, está pedindo para ter o aparelho levado. Atitudes assim só alimentam o medo e devem ser combatidas. É evidente que em um país como o Brasil, grande e com altos índices de violência, prudência nunca é demais, no entanto, é preciso deixar claro que a culpa nunca é da vítima.