Os anos passam, e fazem com que a memória se esforce, por vezes, para relembrar os tempos de outrora, os instantes de garoto e farras inocentes. Em um cantinho mais doce, onde se abriga a saudade, no entanto, repousa a feliz lembrança de pessoas que os fados colocaram em nossas vidas. Quando são invocadas, basta um átimo para que suas imagens maternais se façam presentes.
No penúltimo ano do grupo escolar - termo arcaico, bem sei, considerando-se a modernidade - tive como mestra a Dona Nair. Magra, alta, com inesgotável paciência, cuidava de dividir as tarefas do lar com a educação dos "filhos adotivos" - e não me esforço no uso da expressão. Era isso que sentia, no espaço que, privado do lar, era entregue às suas mãos. Alheia às divisões sociais dos que frequentavam o estabelecimento público de ensino, mais que lecionar, nos preparava para a vida; forjava em nós, meninos, elos eternos de caráter e dignidade.
Já na série derradeira, fui apresentado à Dona Etelvina, com bem mais idade, e menor estatura física - embora imensa no carinho e abnegação. Sua elegância e o odor do perfume simples que exalava, ficaram incrustrados em mim, tornando mais nítida sua imagem. Voz pausada, passos lentos, talentosa no expor, o que denotava a experiência que a acompanhava, jamais esmorecia ou desdizia o sacerdócio que escolheu por profissão.
Burilando o que já trazíamos como bagagem - afinal ,o vestibular para o ginásio estava às portas -, reforçava os ensinamentos morais, mostrava o bom caminho, sempre contando com a nossa mais profunda reverência.
Hoje, quando os dias são outros; quando a incompreensão e a violência fixaram morada dentro das salas de aulas; quando o exercício da cátedra é obscurecido por atos de selvageria, em tantos lugares; entristecido, deixo minha singela saudação aos vocacionados que, a exemplo de minhas antigas mestras, insistem em continuar na árdua jornada de educar.
Feliz semana dos professores!