Um dia ele seria julgado pela história. A avaliação de um político não é feita apenas sobre o que ele fala sobre sí mesmo. Mas isto não o atormentava.
O que era importante era estar sempre ao lado dos mais fortes e ricos. Sua origem humilde era um cartão de apresentação que usava sempre que participava dos encontros nas salas do poder. Exibia sua capacidade de deixar os humildes e se misturar alegremente com os favorecidos pela sorte, pela herança dos antepassados ou simplesmente pelos favores que a família recebeu do Estado em algum momento. Tinha sempre pronto um discurso que falava de conciliação, de paz, de bem estar para todos. Mas era um palavrório vazio e muitas vezes completamente contraditório do que negociava nos corredores e salas dos poderosos do momento.
Em quatro momentos ocupou o posto de ministro e chegou a governar o país. Ninguém se importava que ele fosse originário do clero e que tivesse participado da assembleia que redigiu a constituição revolucionária. Primeiro apoiou a Igreja, depois foi favorável a nacionalização de seus bens e conseguiu uma reforma que permitiu a reorganização total da instituição para que funcionasse a serviço do Estado. Essas mudanças foram pequenas se comparadas com o fato de ter apoiado a revolução, a ditadura, a volta do absolutismo e o liberalismo. Acusado, ainda em vida, de ser cínico e imoral, rebatia com o argumento que não servia a regimes políticos, mas sim ao seu país.
Na imprensa era tratado por uns como um canalha e por outros como um estadista, afinal tinha conseguido vitórias importantes diante das grandes potências que dominavam o mundo. Diante dessas vitórias tudo o mais que se falava era poeira e o tempo se encarregaria de soprar para bem longe. Até as metrópoles lhe deviam favores, uma vez que articulou um movimento para impedir que suas colônias se tornassem países independente. Todos o chamavam de Talleyrand. Se outros políticos seguiram ou não os seus exemplos, a história se encarregou de listar.