"Hospícios são as flores frias que se colam em nossas cabeças perdidas em escadarias de mármore antigo, subitamente futuro - como o que não se pode ainda compreender". A autoficção da escritora Maura Lopes Cançado e seu tom confessional despertaram a atenção da atriz Maria Padilha para a poesia da escritora brasileira considerada, entre tantas mulheres, como louca, pelo sistema psiquiátrico da época.
Encerra hoje a temporada do espetáculo "Diários do Abismo", inspirada em "O Hospício é Deus" (1965), da mineira diagnosticada com esquizofrenia. A obra, redescoberta nos últimos anos, foi importante testemunha dos casos de maus-tratos sofridos por pacientes em manicômios. Maura ainda deixou o livro de contos "O Sofredor do Ver" (1968).
"Hospício é Deus" foi escrito em forma de um diário e reúne memórias da paciente nos diversos anos em que esteve internada. Na obra, Maura adentra o campo poético e autoficcional construindo narrativas "teatrais", diz a atriz. "Há muitas conversas relatadas", conta Maria. "Ela descreve o ambiente, seja num quarto ou enfermaria, e os diálogos que teve com médicos, enfermeiras e outros pacientes".
O sonho de ser escritora levou a jovem a sair de São Gonçalo do Abaeté (MG) em busca de oportunidades. A infância considerada cheia de angústias pela escritora já aponta para uma vida adulta com a saúde fragilizada. "Ela tinha convulsões e sua família parecia negligenciar o problema e ela não foi tratada nessa época", diz Maria.
Aos 15 anos, teve o único filho, com um jovem de 18. Logo decidiu se separar e na maioridade internou-se voluntariamente em uma clínica em Belo Horizonte. "Maura já enfrentava vários estigmas na juventude. Mãe, separada e esquizofrênica eram coisas demais. O machismo só fazia as pessoas se afastarem".
Um brilho de esperança surge quando Maura, aos 22 anos, chega ao Rio e tem sua escrita celebrada por jornalistas e poetas como Ferreira Gullar, Assis Brasil e Carlos Heitor Cony. Seus textos passaram a ser publicados no Jornal do Brasil e no Correio da Manhã. Para o diretor, Sérgio Módena, a consciência que Maura tinha sobre a própria saúde faz da sua obra um relato fiel, íntimo e, muitas vezes, irônico sobre a história dos manicômios no Brasil. Em certo momento ela elogia o trabalho da psiquiatra Nise da Silveira, que lutou contra práticas agressivas e pela humanização no tratamento dos pacientes.
No palco, Maria ocupa um ambiente com colchões que reinventa as memórias de Maura e vai em busca por descrevê-las. "Na peça, o hospício é como um microcosmo, onde o poder envolvido confunde-se entre quem é são e quem é doente". Para o diretor, a peça reconstrói a saudade que Maura tinha de Minas, os sonhos de viver como escritora e as dores de uma vida solitária.