Em uma era de smartphones e redes sociais, nunca se tirou tantas fotos como nos dias de hoje, a selfie se tornou um retrato do comportamento da sociedade contemporânea, porém esse turbilhão de imagens que migram de redes em redes, muitas vezes em busca de "likes", se perdem com o tempo, caindo no esquecimento ou simplesmente sendo deletadas. Tais indagações causam certos anseios e desconforto no artista Nario Barbosa, que por ter mais de 20 anos de carreira como fotojornalista e artista visual, possui uma relação afetiva com a fotografia, que extrapola o âmbito do registro, suas pesquisas transitam do autobiográfico ao manipulável.
E, durante a mostra "Lembra, Corpo?", em cartaz até o dia 3 de março na Biblioteca Parque Villa-Lobos, questões acerca do tempo, corpo e memória se tornam fios condutores que norteiam o processo de criação do artista, que a convite do curador Diógenes Moura realizou intervenções sobre 30 imagens que pertencem ao acervo do Museu da Pessoa, dessa forma produzindo obras originais, sendo que nenhuma das fotografias são de sua autoria.
Por meio do bordado, prática que desenvolve há anos, Barbosa se atenta ao ímpeto da imagem, que perpassa pelas tramas em linha, criando novos significados sobre histórias ao qual desconhece, o artista menciona que "essas fotografias não foram feitas por mim, o que torna mais desafiador o processo de criação, uma experiência intensa e que provoca inquietude, pelo fato de estar interferindo sobre o registro de uma história ao qual desconheço".
O artista que no ano passado ganhou grande destaque por sua mostra individual na OMA Galeria e durante sua participação da SP-Arte/Foto, inicia o ano de 2019 com um grande desafio para a sua carreira, quando questionado sobre a exposição, Barbosa cita, "observo as 30 fotografias que estou bordando, e noto que são registros de família, crianças, casais, noivos, e fico pensando onde estão essas pessoas, se ainda estão vivas e, portanto, vejo a linha como um condutor que norteia novas memórias sobre aquilo que esta ali".
Nario Barbosa ainda menciona a importância de ter uma instituição como o Museu da Pessoa, que se dedica a preservar a memória e história das pessoas, principalmente por vivermos uma sociedade do descarte, visto que as pessoas fotografam muito, mas não dedicam tempo à memória da fotografia, de guardar e observá-las através do tempo.
Fundado em 1991 o Museu da Pessoa abriga o patrimônio imaterial cultural e histórico do Brasil, e hoje conta com cerca de 70 mil arquivos, dentre eles depoimentos em áudio, vídeo, texto e foto, incluindo agora as 30 fotos bordadas por Nario Barbosa, que passarão também a integrar este mesmo acervo. Com entrada gratuita a mostra ficará aberta a visitação até o dia 3 de março.