Rir sempre foi considerado o melhor remédio para os problemas das pessoas. Por meio de peças de grupos de humor ou contação de anedotas, a comédia faz parte do dia a dia da população. Mas o que acontece quando a sátira ultrapassa o limite do certo e o errado? Esta pergunta sempre surge quando há alguma polêmica envolvendo humoristas e algum grupo que se sentiu ofendido com suas piadas. Ocorrências recentes nas cidades de Mogi das Cruzes e Suzano contribuíram para o aumento dessa questão.
O principal caso foi do humorista Dihh Lopes, integrante do grupo 4 Amigos. Lopes fez um vídeo com piadas sobre o massacre da Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano, ocorrido em março do ano passado.
Após a divulgação, o conteúdo da publicação gerou revolta entre grupos de familiares das vítimas do atentado e de uma parcela de moradores da região, acarretando no cancelamento de um show do 4 Amigos, que seria realizado no Cemforpe, em Mogi das Cruzes, e um evento do comediante Thiago Ventura, que faz parte do mesmo grupo, no Teatro Armando de Ré, em Suzano.
Após a repercussão do caso, o artista divulgou um vídeo em sua rede social para falar sobre a polêmica. "Eu fiz as piadas sim! Está lá no vídeo, que é voltado para o segmento de piadas 'pesadas', e, no mesmo vídeo, fiz mais um monte de outras piadas [...]. Só acho que tirá-lo de contexto é no mínimo estranho", desabafou.
No fim de 2019, outro caso de cancelamento chamou a atenção. O comediante Léo Lins, que iria fazer uma apresentação em um espaço particular em Suzano, teve seu show cancelado. Para o humorista, houve censura por parte do poder público da cidade, em represália a um vídeo de sua autoria, em que conta a história do município, citando o caso da Raul Brasil e satirizando o prefeito Rodrigo Ashiuchi.
Casos de interferência do poder público em conteúdos humorísticos não se restringem aos shows de stand-up. No início do ano, a produtora Porta dos Fundos foi criticada por grupos  religiosos por conta do seu Especial de Natal, em que retrata Jesus como homossexual. O vídeo chegou a ser proibido de ser exibido por um desembargador do Rio de Janeiro, mas foi liberado após a acusação de censura feita pela produtora carioca.
Para o advogado Leandro Odilon, as leis brasileiras garantem a liberdade de expressão, e, independentemente do tipo de ato, devem ser respeitadas. "A Constituição Federal garante a liberdade e a livre manifestação do pensamento e a procura, o recebimento e a difusão de informações ou ideias por qualquer meio e sem dependência de censura".
Odilon ainda afirma que, quando uma pessoa se sentir ofendida por qualquer manifestação de expressão (artística, cultural, religiosa, dentre outras), ela poderá levar sua queixa adiante. "Ela tem o direito de abrir um questionamento perante a Justiça. Porém, não cabe ao Poder Executivo censurar aquilo que não lhe agrada", conclui.
Mesmo com a defesa de liberdade de expressão ao meio artístico, a OAB-SP, na época, divulgou uma nota repudiando a ação de Dihh Lopes. "É lamentável que um artista se utilize de um evento violento e dramático, que deixou feridas nas famílias das vítimas e nos membros da sociedade, para fazer piadas e tentar arrancar o riso".
Ainda segundo a nota da Ordem de Advogados do Brasil, "é inadmissível a qualquer pessoa se valer de uma tragédia, que traz à tona diversos assuntos importantes, como violência nas escolas, o bullying, a segurança, dentre tantos outros, como catálogo para piadas em um show".
Administração municipal
Sobre os supostos casos de censura envolvendo eventos cancelados em Suzano, a prefeitura divulgou notas sobre o assunto. No caso do show de Thiago Ventura, o poder público informou que "não foi protocolada qualquer solicitação formal junto à Secretaria de Cultura para o uso do espaço público por parte dos realizadores ou de seus produtores".
Com relação ao cancelamento da apresentação de Léo Lins, a prefeitura esclarece que "não teve envolvimento com a não realização do espetáculo, quando ocorreram divergências entre o locatário do espaço onde seria o show e a produção".
* Texto sob supervisão do editor.