O arquivamento do inquérito que apurava possíveis irregularidades na conduta dos 31 policiais militares envolvidos na ação que resultou na morte de nove pessoas na comunidade de Paraisópolis, em dezembro do ano passado, gerou revolta em familiares e amigos dos jovens que morreram, incluindo dois mogianos. A Corregedoria da PM, responsável pelo arquivamento, ressaltou no relatório que os policiais agiram de forma lícita, e em legítima defesa, sem sequer praticar alguma infração militar durante a ação no baile funk realizado na zona sul de São Paulo.
Uma das vítimas de Mogi das Cruzes é o operador de telemarketing Bruno Gabriel dos Santos, de 22 anos, que saiu de casa dizendo que iria comemorar o aniversário na casa de um conhecido. Seu amigo, Otávio Augusto Seelmann, 18 anos, que possui a mesma profissão que Santos, criticou o arquivamento do inquérito e disse que se fosse a morte de policiais, as investigações iriam até as últimas instâncias. "Eles (Corregedoria da PM) estão fazendo de tudo para encerrar o caso porque sabem que os policiais estão errados, que não foi pisoteamento. Se estão corretos, por que não vão até o final das investigações?", questionou Seelmann, sobre a morte do amigo, por ele considerado um irmão.
A irmã adotiva de Santos, a professora Vanini Cristiane Siqueira, 39, respondeu à reportagem reafirmando seu anseio por Justiça o mais breve possível. "A luta continua", resumiu. Este é o mesmo discurso da professora há época dos acontecimentos, quando ela queria respostas sobre o ocorrido. "Precisamos saber o que realmente aconteceu durante a ação dos policiais. Tudo indica que meu irmão foi pego na cabeça ou foi atingido de frente", disse, Vaninni durante o enterro de seu irmão.
Já Gabriela Martins Bernardes, 18, amiga do leiturista Gabriel Rogério de Moraes, 20, morador do bairro Vila Cléo, morto na ação, acredita que há uma tentativa por parte da polícia em tirar o caso da mídia e que não acha justo as recentes decisões. "Era um menino bem tranquilo, e agora todo dia primeiro faz um mês que ele se foi", disse a estudante, que também conhecia Santos e lamenta pela morte dos dois amigos. "Eles (policiais) levaram muitas vidas, a polícia está errada e todos nós estamos sofrendo muito", concluiu.
Defesa
O advogado Fernando Capano, responsável pela defesa dos 31 policiais que participaram da ação em Paraisópolis, disse que a decisão da Corregedoria da PM, sugerindo o arquivamento da investigação, condiz com a lógica adotada pela defesa desde o início do processo. "Não há como apurar nexo de causalidade (vínculo entre a conduta do agente e o resultado ilícito) entre a conduta dos policiais na ocorrência e as lamentáveis mortes ocorridas, conforme falamos desde o princípio", ressaltou o advogado.