A decisão de se afastar das salas de aula aconteceu mais cedo do que a professora Jussara Melo, de 55 anos, imaginava. Há quase 19 anos lecionando na Escola Estadual Professor Raul Brasil, em Suzano, ela vivenciou o massacre ocorrido no dia 13 de março deste ano, quando ensinava a língua espanhola para alunos iniciantes, no Centro de Línguas, localizado dentro da instituição. O dia de amanhã marca dois meses do atentado, data que, para Jussara, é de reflexão. Jussara foi professora de Douglas Murilo Celestino, 16, uma das vítimas fatais do tiroteio. Ao todo, dez pessoas morreram, sendo duas funcionárias, cinco alunos, os dois atiradores e o tio de um deles.
Por volta das 9h10 do último dia 13 de março, a professora iniciava a aula quando escutou tiros vindos do pátio da escola. Ao mesmo tempo, presenciou alunos correndo e tentando se proteger. Ela se escondeu, com cerca de sete estudantes, dentro de uma sala de aula, só saindo de lá momentos depois do crime, quando teve a certeza de que o ambiente estava seguro. "Demorou muito para que saíssemos da sala, não sabia o que ia encontrar lá fora, até que um professor de francês me chamou e perguntou se estava tudo bem. Quando abri a porta, os alunos saíram correndo sem olhar para trás", lembrou a professora.
Os dias passaram, mas as marcas do atentado ficaram em Jussara, que decidiu, então, dar entrada ao processo de aposentadoria. Ela nunca tinha imaginado que a situação poderia acontecer tão perto, pois se sentia segura dentro da Raul Brasil. Hoje, ela se assusta com o barulho de um helicóptero ou da sirene de uma viatura policial e ao ver pessoas correndo. "Passava tanto tempo lá que eu me sentia segura. Muitas vezes, eu chegava a ficar sozinha no horário do almoço. Eu realmente tinha a sensação de segurança, mas, agora, qualquer barulho me deixa em crise e não quero voltar para a escola", revelou.
Para Jussara, é necessário que haja segurança em todas as instituições de ensino, para que se tornem modelo. Apesar de não estar lecionando, a professora participa de uma comissão de pais criada para lutar pela escola. "As pessoas só percebem o problema quando acontece", alertou.