Com o encerramento das campanhas eleitorais, é fácil identificar como as fake news, notícias falsas em tradução literal, impactaram as decisões (e até a falta da tomada) de muitos eleitores. O professor, sociólogo e articulista do Grupo Mogi News, Afonso Pola, acredita que faltou estrutura tanto por parte dos administradores das empresas de redes sociais quanto do poder público. "O volume de fake news foi muito intenso, não só os administradores, assim como a Justiça Eleitoral, não tiveram estrutura para coibir", analisou.
Pola ainda apontou que o reflexo negativo dos conteúdos falsos discorridos na Internet já é reconhecido, mas que será analisado e compreendido apenas após as eleições. "A eleição deste ano será utilizada como paradigma. Os estudiosos farão um exame mais reflexivo e vão começar a pensar como será daqui para frente", opinou.
Já a análise do professor de Publicidade e Propaganda e coordenador do curso de pós-graduação em Marketing Digital da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), Fábio Inoue, também acredita que faltou cuidado por parte das empresas de redes sociais quanto do poder público. "Acredito que foi muito mais por um movimento dos veículos de comunicação que puxaram muito essa bandeira do combate às fake news, do que iniciativa própria deles (empresas e governo). Por consequência, eles entraram no movimento; até porque, acredito, que isso começou tarde nos ambientes digitais", pontuou o professor.
Para o sociólogo, as instituições devem criar sistematizações de prevenção aos conteúdos falsos. "Os mecanismos devem ser ágeis. Quanto mais punições, menor o número de ações ilegais", sugeriu. No entanto, ele pondera a medida, e diz que a linha entre a regularização e a censura é tênue. "A punição deve ter um efeito de coibição, sem cair na censura", prosseguiu.
O articulista ainda comentou que as próprias redes sociais mostram características importantes que ajudam a desconfiar do conteúdo compartilhado. "O aplicativo de mensagens mais usado, por exemplo, tem um mecanismo que indica se a pessoa que enviou a mensagem é a mesma que produziu. Um processo educativo de quando as pessoas recebem essa mensagem é de que desconfiem e informem - caso seja falso - quem compartilhou", citou. Pola considera que essa prática desenvolve uma cultura de cuidado em relação aos conteúdos que as pessoas consomem.
O professor de Marketing concorda e complementa dizendo que não é de agora que existe o compartilhamento de conteúdos falsos, e que nos dias de hoje é tão notável pelo fato de estarmos mais conectados. "Com isso, esse conteúdo nocivo se propaga rapidamente e quando cai nos grupos de aplicativos de mensagens é muito difícil de tirar", explicou. "Antigamente, tínhamos as correntes de e-mail e o máximo que podíamos fazer era dar nosso ponto de vista, além de ser restrito ao compartilhamento de uma lista de e-mail. Agora não, temos uma rede muito maior de compartilhamento que foge do controle", prosseguiu.
Inoue enxerga que o aplicativo de mensagens foi uma ferramenta protagonista nas decisões de votos nesta eleição. "Vi diversas pessoas compartilhando tanto a favor ou contra e achei interessante que, quando eu perguntava sobre a fonte, elas disseram que viu por um amigo ou primo e passou para frente, nem abriu o conteúdo", relembrou.
A votação para os candidatos à Presidência, Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT), e para o governo de São Paulo, João Dória (PSDB) e Márcio França (PSB), será amanhã, das 8 às 17 horas.
* Texto supervisionado pelo editor.