Mulheres palestinas relataram ter sido vendadas, algemadas e interrogadas pelas forças israelenses ao tentarem retornar para a casa, em Gaza, após a reabertura da passagem de Rafah, na segunda-feira (2). Elas estão entre as poucas pessoas autorizadas a regressar ao enclave palestino, após Israel autorizar a reabertura tardia da passagem, no âmbito do cessar-fogo assinado em outubro do ano passado. A viagem delas começou a partir do Egito, na segunda, passando pelo posto fronteiriço e atravessando a zona da “linha amarela” controlada por Israel e um grupo militante palestino aliado. O trajeto envolveu longos atrasos e o confisco de presentes, incluindo brinquedos, disse uma das mulheres. “Foi uma viagem de horror, humilhação e opressão”, disse por telefone Huda Abu Abed (imagem em destaque), de 56 anos, falando da tenda onde sua família está morando em Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza. O relato foi corroborado pelo de outra mulher entrevistada pela Reuters e por comentários de uma terceira palestina entrevistada por uma emissora de televisão árabe. Em resposta a um pedido de comentário da Reuters, as Forças Armadas de Israel negaram que suas tropas tenham agido de forma inadequada ou maltratado palestinos que cruzaram para Gaza, sem abordar as alegações específicas feitas pelas duas mulheres entrevistadas. Interrogatório Mulheres se abraçam no Nasser Hospital de Kahn Younis, apór cruzarem a fronteira de Rafah, no Sul de Gaza - Reuters/Ramadan Abed A expectativa era de que cerca de 50 palestinos entrassem no enclave na segunda-feira, mas ao anoitecer apenas três mulheres e nove crianças haviam sido autorizadas a passar, segundo fontes palestinas e egípcias, com outras 38 retidas aguardando para passar pela segurança. No sentido contrário, das 50 pessoas que esperavam para deixar Gaza, principalmente para tratamento médico do outro lado da fronteira, apenas cinco pacientes com sete acompanhantes conseguiram cruzar para o Egito no dia da reabertura. Segundo Huda Abu Abed, os repatriados podiam levar uma única mala cada, e encontraram os primeiros problemas na passagem, onde monitores de fronteira europeus confiscaram brinquedos que levavam para casa como presentes, disse ela. Ela passou um ano no Egito para tratamento cardíaco, mas voltou antes porque sentia saudades da família. Uma filha adulta também havia viajado ao Egito para tratamento médico. Um filho adulto foi morto em dezembro de 2024 e ela não pôde se despedir dele, disse. Outros dois filhos estão em Gaza. Depois de atravessarem a fronteira e chegarem do lado de Gaza, os 12 repatriados embarcaram em um ônibus para sua viagem pela zona controlada por Israel e atravessaram a “linha amarela” que demarca as regiões controladas por Israel e pelo Hamas. Uma segunda mulher, Sabah al-Raqeb, de 41 anos, disse que o ônibus – escoltado por dois veículos com tração nas quatro rodas – foi parado em um posto de controle operado por homens armados palestinos apoiados por Israel que se identificaram como pertencentes às Forças Populares, comumente conhecidas como milícia Abu Shabab. Os nomes das mulheres foram lidos em um alto-falante e cada uma foi conduzida por dois homens e uma mulher da milícia Abu Shabab até um posto de segurança onde as forças israelenses aguardavam. Em seguida, elas foram vendadas e algemadas, disseram ela e Abu Abed. Elas foram questionadas sobre o que sabiam sobre o Hamas, sobre o ataque de 7 de outubro de 2023 a Israel e outras questões relacionadas à militância, relataram as duas mulheres. Os homens armados palestinos anti-Hamas disseram ainda que elas poderiam permanecer na área controlada por Israel, disse al-Raqeb. “O oficial me perguntou por que eu voltei para Gaza, já que estava destruída. Eu disse a ele que voltei por causa dos meus filhos e da minha família”, disse Raqeb, que voltou para os sete filhos que vivem em uma barraca após deixar Gaza há dois anos para o que ela esperava ser uma viagem curta para tratamento médico. Abu Abed disse que o interrogatório durou mais de duas horas. Em uma declaração negando qualquer irregularidade, as forças armadas de Israel disseram que não havia incidentes conhecidos de conduta inadequada, maus-tratos, apreensões ou confisco de propriedade pelas forças de segurança israelenses. Também declararam que houve um “processo de identificação e triagem nas instalações de 'Regavim', que são geridas pelas forças de segurança em uma área sob controle [militar israelense]”. Afirmaram ainda que o processo seguiu a triagem realizada por pessoal europeu, procedimento acordado por todas as partes. Milícia armada Única rota de entrada e saída para quase todos os mais de 2 milhões de habitantes de Gaza, a passagem de Rafah ficou fechada durante a maior parte da guerra. Ela deveria ter sido reaberta na primeira fase do cessar-fogo entre Israel e o Hamas, acordado em outubro do ano passado. Rafah, uma cidade de 250 mil habitantes, ficou quase totalmente despovoada durante a guerra. Israel ordenou que todos os residentes saíssem antes de realizar demolições extensas que a transformaram em um terreno baldio repleto de escombros. Cerca de 20 mil habitantes de Gaza esperam partir para tratamento no exterior. Apesar da lenta reabertura, muitos deles avaliam que a medida trouxe alívio. Na terça-feira (3), a previsão era de que 50 palestinos cruzassem a fronteira do Egito para Gaza, de acordo com uma fonte egípcia. *Reportagem adicional de Rami Ayyub, em Jerusalém É proibida a reprodução deste conteúdo Relacionadas Fronteira de Rafah entre Gaza e Egito é reaberta condicionalmente