Em uma perspectiva teórica, a sociedade capitalista se divide em duas classes. Os capitalistas, detentores dos meios de produção (instrumentos de produção e matéria prima) e o proletariado (que vende sua força de trabalho para garantir sua subsistência). Podemos identificar esses dois segmentos como o andar de cima e o andar de baixo da referida sociedade.
Nessa realidade, os fatos sociais chegam até nós via duas narrativas. A imediata, disseminada pelos meios de comunicação e, mais recentemente e intensamente, via redes sociais. Eles chegam como informação ou, no caso das redes sociais, muitas vezes como desinformação. Na imensa maioria das vezes são abordagens com conclusões precipitadas, superficiais e carregadas de um viés ideológico, não permitindo melhor entendimento dos acontecimentos. Como os meios de comunicação são os maiores condutores dessas informações e geralmente são empresas privadas, podemos concluir que essa é a narrativa do andar de cima.
Uma outra narrativa, mais consistente e fruto de pesquisas e estudos, é mais lenta. Chega até nós depois, a partir de reflexões de inúmeros especialistas e acadêmicos. Não mais envolvido pela emoção de um fato que está em curso e já avistando seus desdobramentos, o estudioso analisa cada fato social de uma posição bastante privilegiada. Portanto, ele possui melhor condição para compreender aquilo que, no momento em que está em curso não é muito compreensível. Obviamente, nesse caso também a conclusão, seja ela qual for, carrega um viés ideológico, mas geralmente já considera a narrativa do andar de baixo.
O Chile, transformou-se num grande laboratório do pensamento neoliberal, sendo palco de reformas econômicas conduzidas por economistas formados em universidades estadunidenses, conhecidos como “Chicago Boys”.
Na narrativa do “andar de cima” o país foi apresentado como a “terra prometida” do neoliberalismo. O ex-ministro do governo Bolsonaro, Paulo Guedes, chegou a defender a mudança da nossa previdência para o regime de capitalização igual ao Chile. Ele inclusive chamou aquele país de “Suíça da América Latina”. Parece que as coisas por lá não deram muito certo.
Agora, a bola da vez na narrativa do andar de cima, é a Argentina de Milei.
Numa comparação direta, a economia do Brasil é significativamente maior, mais estável e estruturada que a da Argentina, com PIB, reservas internacionais e exportações superiores. O Brasil é a 9ª maior economia do mundo, com PIB muito superior ao argentino. O PIB brasileiro é cerca de três vezes maior, e as exportações quatro vezes maiores. E o governo Milei acabou de aprovar um conjunto de medidas retirando direitos dos trabalhadores.
Mas o andar de cima exalta os feitos por lá. Ou seja, é pura ideologia.
Afonso Pola (afonsopola@uol.com.br) é sociólogo e professor