O negacionismo, que reúne determinados segmentos sociais, não tem por hábito negar apenas a ciência e a forma do planeta. Esses negacionistas também negam que existe um processo de aquecimento global em curso, decorrente da ação human. O modelo de desenvolvimento econômico que tanto caracterizou o século 20, particularmente em sua segunda metade, trouxe graves consequências e a fatura está sendo cobrada.

Existem estudos que mostram que, caso o padrão de consumo mundial fosse equivalente ao consumo dos EUA, necessitaríamos de alguns planetas Terra para fornecer os recursos naturais necessários para se produzir tanto.

Uma pesquisa realizada pelo Climate Central, uma organização sem fins lucrativos sediada nos Estados Unidos, em parceria com a Universidade Princeton, também nos EUA, e o Instituto Potsdam de Pesquisa de Impacto do Clima, na Alemanha, foi guiada pela seguinte pergunta: Como o aumento da temperatura global e a elevação do nível do mar vai afetar na prática diferentes regiões do planeta?

Essa pesquisa já publicada em revista científica identificou lugares que podem sofrer graves inundações, caso as políticas para combater as mudanças climáticas não sejam colocadas em prática. Centenas de áreas costeiras, que abrigam atualmente mais de 1 bilhão de pessoas, estão sob risco. Uma elevação de até 3°C nas próximas décadas (em comparação com a média pré-industrial), esses danos seriam muito graves. O dobro do risco caso o aumento fique entre 1,5°C e 2°C.

No caso do Brasil, pelo tamanho do nosso litoral, várias cidades seriam atingidas. Salvador, por exemplo, com o aumento de 1,5°C faria o mar avançar sobre parte do centro e outros bairros da Cidade Baixa. Com o aumento de 3°C, a área onde fica o Mercado Modelo seria tomada pelas águas.

Além de Salvador, vária cidades litorâneas perderiam para o mar áreas importantes. É o caso de Recife, Fortaleza, Porto Alegre (em função do Rio Guaíba) e Rio de Janeiro teriam áreas perdidas para as águas. Ou seja, apenas não piorar é insuficiente para entregar um mundo melhor para as próximas gerações.

Afonso Pola é sociólogo e professor.