Em meados de junho, Dilma Rousseff fez chegar à Imprensa a decisão de divulgar uma carta aos brasileiros, a exemplo do que fizera o ex Lula, com sucesso, em 2002. Junho acabou sem a missiva. Veio julho, nada. Agosto chegou e a tal carta, que pretendia ser o instrumento decisivo de defesa da presidente afastada, se tornou símbolo da discórdia entre os poucos aliados que ela ainda tem. Entre ela e o PT, entre ela e a realidade.
O ponto central - a convocação de plebiscito para novas eleições - foi publicamente rechaçado pelo presidente nacional do PT, Rui Falcão, que, melhor do que qualquer oposicionista, demonstrou o quanto a proposta é inviável e inexequível. Um acesso de sinceridade, no qual só faltou denunciar o oportunismo barato de falar de "eleições já" para agradar a galera que não quer nem Dilma nem Temer.
A insistência na ladainha do "golpe parlamentar" também desune. Há os que defendem o argumento como eixo da carta, outros o repudiam. Temem que sua utilização no plenário possa ferir o brio dos senadores.
Dilma está só. Nas ruas, nem os poucos manifestantes arrebanhados por movimentos de esquerda conseguem defendê-la. Não se vê um "fica Dilma". Ninguém reivindica a permanência dela no Planalto. Só o "fora Temer" os une.
Exausta, Dilma repisa na tese da ilegitimidade do presidente em exercício, que não teria recebido os 54 milhões de votos a ela conferidos. Uma tolice.
Agora, a carta de Dilma só deverá ser formalizada no final de agosto ou no início de setembro. Chegou a ser anunciada para amanhã, mas o mais provável é que fique cozendo no caldo ácido do dissenso até à véspera da votação final do impeachment.
Embora saiba que nada alterará a contagem das favas quanto ao seu destino, Dilma afirma que o documento "dá um caminho de uma transição, de uma saída para o país", e que ela vai "vencer no Senado e na história". Um tento que Dilma até poderia alcançar, se, em um lapso de grandeza e espírito público, abreviasse a agonia do país com o anúncio de sua renúncia. Seria uma cartada e tanto.