A divulgação dos resultados da Prova Nacional Docente reacendeu um debate antigo: a qualidade da formação dos professores brasileiros. Parte da Imprensa transformou números em sentenças, especialmente quando os desempenhos mais baixos apareceram entre docentes formados em cursos a distância. O problema é que, ao fazer isso, ignora-se tudo o que sustenta, de fato, o trabalho de ensinar.
A formação de um professor não se encerra no diploma. Ela é contínua, múltipla, atravessada por teorias, mas também, e sobretudo, por práticas, vivências, desafios cotidianos e pela capacidade de transformar conhecimento em experiência significativa para o aluno. Avaliar esse profissional apenas por uma prova é desconsiderar que sua bagagem se constrói no chão da escola, no enfrentamento de realidades sociais complexas e na mediação de conflitos que extrapolam o campo pedagógico.
Os resultados satisfatórios de alguns e insatisfatórios de outros não deveriam servir para desqualificar ninguém, mas para ampliar o olhar sobre o que significa ser professor no Brasil. Em vez de puni-los, é preciso compreender que muitos enfrentam jornadas exaustivas, acumulam turnos, lidam com falta de estrutura e ainda tentam conciliar trabalho com estudos, muitas vezes, sem condições reais de aprofundar-se nas áreas em que desejam se especializar.
A Prova Nacional Docente pode ser um instrumento de diagnóstico, mas não deve ser usada como punição àqueles que sustentam a educação pública com esforço, resiliência e, muitas vezes, sacrifício pessoal. A compreensão real sobre a docência vem de quem vive seus bastidores, e são esses profissionais que devem ser ouvidos para analisar críticas que, na maioria das vezes, os atingem com severidade.
Se o país deseja professores mais bem preparados, precisa garantir condições para que eles possam não apenas exercer seu ofício (cuja jornada vai muito além da sala de aula), mas também conciliar, de forma equilibrada, sua trajetória profissional, acadêmica e pessoal. Porque não há educação de qualidade sem valorização de quem a torna possível.
Suéller Costa (sueller.costa@gmail.com) é jornalista, pedagoga, educomunicadora e pesquisadora. Doutoranda em Educação (FEUSP). Mestre em Ciências da Comunicação (ECA/USP). Especialista em Educomunicação (ECA/USP). Sócia da ABPEducom e APEP. Idealizadora do Educom Alto Tietê. Contatos: @educomaltotiete; @suellercosta