Inteligência é destino: claro! Também, pode ser construção. Além de ser bagagem, fardo próprio, dentro de determinada medida. O problema, a diferença, são os modos de usá-la: o que se faz com o pouco ou o muito, de inteligência que se tem? Assim: inteligência não é valor! É comportamento alicerçado em dosada sabedoria, construída a partir de mais amplo conhecimento possível!

Alguns pensam ser valorosos por aparentar raridade ou estar envolvidos em funções de notório destaque. Ao contrário, ao se olhar de forma mais ampla, veremos que se tem pessoas inteligentes espalhadas por todos os cantos, de sorte que, em alguns meios, especialmente nos meios artísticos e científicos, ela é antes, uma obrigação, quando não uma nota menos louvável.

É certo: há formas obstinadas de seu uso, mas todas, tomadas em si mesmas soam repugnantes. Creio que, por isso mesmo, tem-se um olhar tolerante para com os meninos aplicados que sempre se comportam como se estivessem em uma competição, na qual de tudo fazem, de melhor e mais rápido, responder mais questões ou fazer mais perguntas, como se aptos a construir qualquer coisa ou a resolver qualquer enigma.

Sabemos que, todos esses que procuram se afirmar só pela inteligência, por mais preparados ou mais dedicados que sejam, nota-se que lhes falta algo: uma alegria, uma razão de ser, e mesmo parecerem movidos, em sua obstinação, por algo, não percebido, que se esforçam em compensar ou esquecer.

Às vezes, porém, em clima de Salvador da Pátria, vive-se uma realidade que em nada solicita condescendência. Estamos longe do uso dessa inteligência como empenho na construção de uma personalidade, em ética assentada. Em vez de arma de defesa, a inteligência se torna arma de ataque e usurpação, principalmente ao se propor ser reflexo de talento admirável. Assim o "ser inteligente" se torna sinônimo de cinismo: mero olhar cáustico capaz de chegar a tudo comprometer! Sem o mínimo de ironia como o absurdo da política atual!

Raul Rodrigues é engenheiro e ex-professor universitário