A reforma da Previdência começa a tramitar no Congresso Nacional. E está cercada de expectativa e dúvidas. O primeiro fato gerador de polêmica e que coloca especialistas em campos distintos é a questão do déficit. De acordo com a Constituição de 1988, a Previdência está dentro do guarda-chuva da Seguridade Social, junto da Saúde e da Assistência Social. Portanto, esse guarda-chuva chamado Seguridade Social recebe recursos que vão além das contribuições dos trabalhadores do setor público e privado. Por isso que vários especialistas questionam os dados que retratam o déficit anunciado.
Em segundo lugar, o valor acumulado de dívidas de empresas privadas com a Previdência é de R$ 450 bilhões e, para piorar a situação, conforme a Procuradoria da Fazenda Nacional, somente
R$ 175 bilhões correspondem a débitos recuperáveis.
Mas para além dessas duas questões, outros fatos lançam dúvidas sobre as bases da reforma enviada. Os brasileiros pobres geralmente começam a trabalhar mais cedo e, com a reforma da Previdência, terão de contribuir muito mais anos ao INSS do que o mínimo necessário para ter o direito de se aposentar. O tempo de contribuição exigido pela reforma é de 40 anos para ter 100% de aposentadoria, e a idade mínima é de 62 anos para mulheres e 65 anos para homens.
Um pobre que começar a trabalhar aos 14 anos como jovem aprendiz terá de contribuir 48 anos (mulher) ou 51 anos (homem), quase 30% a mais de quem começa a trabalhar mais tarde. E nesse segmento, a interrupção da situação de empregado é frequente.
A definição de idade mínima com uma regra geral aplicada da mesma forma para todos também é injusta. A expectativa de vida média no Brasil é de 75,8 anos. No entanto, enquanto em Santa Catarina ela chega a 78,4 anos, no Maranhão é de apenas 70 anos. Mesmos nos estados onde a expectativa média é mais elevada, isso não vale para todos.
Com a palavra o povo e os seus representantes eleitos.