A esta altura da jornada, já não me chamam mais pelo nome: Raul. Todos me chamam por Senhor ou Avô, inclusive alguns amigos.
Quando um tem, como eu, mais de setenta anos, que mais pode pedir. Não peço nada. Fui e sigo, na medida do possível, sendo altivo. A altivez certa inclui conhecimento sobre a manutenção da saúde e o que fazer para mantê-la! Ciente de não fazer apologia de nada, fico quieto e calado: quieto, por vocação e calado, por obrigação!
Isto suposto, já faz alguns anos que me acostumei a permanecer na rede, no barraco da Riveira, onde me dedico ao que mais gosto de fazer, que é ler; ou na cama, onde, também me dou ao luxo de ler, e tirar reconfortantes e ostensivas sonecas! E meditar sobre o que posso escrever a partir do que a leitura cala em mim como conhecimento, e espaço para me pronunciar.
Vejam que ousadia: minha diversão é recorrer à vida vivida, buscar e rebuscar algum detalhe que creio ter esquecido e no entanto se encontra oculto em algum recanto adormecido da memória. Neste caso com a sempre amorosa companhia de uma gata preta a me encarar com aqueles esbugalhados olhos cor de ouro, de amiga.
Não falo. Os demais creem que pouco me interessa falar, inclusive o médico circunstancial que de mim cuida, o crê. Mas eu posso falar: noite adentro falo, em monólogo, vez ou outra, bafejado pelos mais simbólicos e intrigantes sonhos. Naturalmente em voz baixa, para que não me levem a mal e suspeitem que estou tentando um diálogo com o alemão de plantão: o Alzheimer!
Falo nada mais que para me assegurar se ainda posso. Falar: para que? Afortunadamente, posso ir ao banheiro, me vestir para dormir e para iniciar as atividades do dia, por mím mesmo, sem ajuda de ninguém. Tomar uma ducha: sem ajuda! Quando ao final me enxugo com uma toalha seca e fria, sinto o quanto isso me faz bem, principalmente sob tórrido verão. Me faz bem, porque, nada de mais surpreendente pode-se esperar de um rápido banho matinal, a não ser somar vida aos anos que ainda me restam!