Seu nome Ricardo!
Mas não importa se fosse João, José, ou outro qualquer. Era um daqueles que, invisíveis, fantasmas sociais desfilam por aí.
Na rua há tempos, tinha por teto ou as sombras de algumas arvores amigas, ou marquises quaisquer, quando as encontrava. A cama, reles papelão, que evitava a aspereza do cimento frio, sobre o qual estendia um puído cobertor - aquele mesmo que um determinado alcaide, através de sua guarda pretoriana pretendeu confiscar.
Nos restos dos lixos encontrava o cardápio para o sustento diário.
Quis ir além! Sonhando com iguaria, apelou ao proprietário de comércio uma ou duas fatias de pizza.
Mas ele era o fétido Ricardo! Aquele que, mercê de sua forma física e dos andrajos que o cobriam, tinha o dom de afastar a freguesia. Pessoa - se é que o termo se lhe aplicava - mal vista.
Não só o pedido lhe foi negado, como, na insistência, clamou-se pela presença das forças de segurança.
Veio a milícia. Cérebro embotado pela fome, ou, quiçá, pela cangibrina, a pinga, a cana, companheira fiel das noites de frio, discutiu, e o que pior, muniu-se de pedaço de madeira.
Foi o que bastou para que se ouvissem os disparos!
As balas lhe cortaram a pele flácida, dilaceraram a pouca carne e os frágeis ossos! Morte quase que instantânea para o que cometia o bárbaro crime de tentar sobreviver!
Seu corpo foi velado pelos irmãos de infortúnio, únicos amigos que computou em sua breve passagem! Sinceros, o acompanharam mesmo no sofrimento final.
Enquanto isso, na "Planície Sagrada", respeitáveis deputados, com pompas e circunstâncias, discutiam sobre o "Puder"!
No mesmo instante, o combalido e larápio gestor da Nação, negociava votos às escancaras, distribuía verbas e verbas, comprando consciências.
Não houve quem se comovesse com o drama! Apenas mais um indigente indigno de preocupações maiores!
Água jogada sobre o sangue derramado, a vida continuou!
Em tempo: Ricardo, desta vez, mesmo que por instante, teve seu nome lembrado nas páginas dos jornais!