A intenção se mostrou interessante, mas ficou só no papel. Um projeto de decreto legislativo apresentado na Câmara de Poá chamou a atenção nesta semana. Ele previa o incentivo à utilização da tribuna em plenário por parte da população durante as sessões. No entanto, foi rejeitado pela grande maioria dos vereadores na última terça-feira, inclusive por dois dos cinco parlamentares que o haviam protocolado.
Sem dúvida, a iniciativa era boa, principalmente em relação ao fortalecimento da democracia naquela que é conhecida como a "Casa do Povo", em se tratando de um local público que reúne aqueles que foram escolhidos para representar a população com a elaboração leis, fiscalização da atuação do Poder Executivo, apresentação de problemas e soluções referentes ao cotidiano, manifestação de críticas e de ideias etc.
Ao mesmo tempo, era de se espantar também que algo assim fosse apresentado e aprovado. Embora pudesse ser uma medida muito positiva e democrática com a abertura da possibilidade para que as pessoas se manifestassem durante uma sessão legislativa, também expunha os vereadores a críticas e cobranças. Mas se você se sujeita a atuar na política, coloca seu nome como candidato a representante do povo, consegue ser eleito, recebe salário pago pelo contribuinte, não seria no mínimo coerente sua atuação estar na berlinda e ser, sim, alvo de críticas ou elogios por parte da população? A resposta parece óbvia, mas não para a maioria dos vereadores poaenses.
A votação do projeto ocorreu justamente em um dia de protesto de educadores na galeria do plenário e, coincidentemente, com uma amostra do que poderia estar por vir a partir de uma tribuna livre para alguns dos presentes. Vários parlamentares acharam por bem deixar como está, muito bem separado, eles e o público. Claro que a proposta rejeitada previa regras para participação, como limitação de uso para duas pessoas por sessão e inscrição prévia, porém, nem isso nem o incentivo da participação popular de forma justa, perfeita e democrática foram suficientes para convencer a maioria.
Sem dúvida, o episódio marcou negativamente a Câmara de Poá. Ainda que existam parlamentares engajados em fazer algo diferente, não houve eco entre seus pares. Em tempos de crise em que a credibilidade da classe política é colocada em xeque, nada mais prudente que essa proposta viesse a ser concretizada na tentativa de mudar um pouco a situação. Tomara que isso inspire outras Câmaras com vereadores mais dispostos a uma democracia plena.