As eleições da maior potência na semana passada agitaram o mundo. A vitória de Donald Trump veio como uma indesejável surpresa. Até o dia da eleição, a maioria dos analistas, e a quase totalidade das pesquisas divulgadas nos EUA, apontavam a vitória da democrata Hillary Clinton. A precipitação que levou jornalistas e analistas a desconsiderarem a hipótese da vitória de Trump, está presente em boa parte das análises feitas a partir do desfecho da eleição.
Na verdade, estamos muito próximo do fenômeno para compreendê-lo com maior isenção. Como será esse governo e como ele vai impactar o mundo, só saberemos quando ele estiver efetivamente em curso. Mesmo considerando as propostas e afirmações feitas na campanha que merecem o repúdio daqueles que prezam pela democracia, é esperar para ver.
De qualquer forma, o fenômeno eleitoral americano precisa ser entendido como resultado de alguns fatores internos (baixas taxas de crescimento econômico e aumento das desigualdades sociais, por exemplo), e também o grande peso de fatores que vão além das fronteiras dos EUA.
Ventos do conservadorismo sopram pelo mundo, particularmente na Europa e América. A intensificação das ações terroristas e a atual e prolongada crise econômica, que afeta a economia mundial desde 2008, são aspectos impulsionadores desse fenômeno.
Enquanto os EUA exibem a vitória de alguém com um discurso ofensivo aos imigrantes, muçulmanos e mulheres, em diversos países europeus presenciamos uma crescente onda antipolítica e xenófoba. As últimas eleições realizadas em países como Polônia, Grécia, Espanha, França e Suécia confirmam tal tendência.
O avanço do conservadorismo não se baseia mais apenas nas clássicas campanhas reacionárias, como as contrárias à globalização, refugiados ou "islamização" da sociedade. Ele vem recheado de reivindicações tradicionalmente abraçadas pela esquerda, a favor do Estado de bem-estar social, mas sem o caráter universal, inclusivo e solidário. Estudiosos o definem como "bem-estar nacionalista". O resultado do referendo que decidiu pela saída do Reino Unido da União Europeia é expressão disso.
Nós não ficamos de fora dessa onda. Na última eleição, tivemos um desfile de políticos (candidatos) com um oportunista discurso de negação da política como aspecto fundamental de qualquer democracia. Vivemos tempos difíceis. E tudo indica que eles não nos deixarão logo.