A política brasileira continua refém da polícia. A prisão de Eduardo Cunha reabriu o leque de especulações punitivas, que vão de Lula a Michel Temer. Há múltiplas delações premiadas em curso, de empresários, doleiros e operadores, algumas já concluídas, acrescentando novos dados e personagens aos crimes de rapina, perpetrados ao longo dos últimos 13 anos e meio contra o Estado brasileiro.
Não se sabe o que daí ainda virá, mas sabe-se que a Lava Jato está longe de seu fim, e obteve prorrogação de um ano em suas investigações. Mas o que se sabe já convulsiona a República.
O legado econômico do PT é devastador. A PEC 241, que estabelece o teto de gastos públicos, nada mais é que o retorno à lógica contábil, em que só se gasta o que se tem. E é um desafio ao gestor, que terá de estabelecer o que de fato é prioridade.
Se, por exemplo, estivesse em vigor no início do governo Dilma, o Brasil não teria promovido nem a Copa do Mundo, nem a Olimpíada, a menos que as considerasse mais prioritárias que educação, saúde, segurança, programas sociais, obviamente prejudicados por gastos adicionais nada modestos.
O resultado aí está: R$ 170 bilhões de déficit no orçamento do próximo ano, 12 milhões de desempregados e milhares de empresas fechadas. No momento, porém, essas coisas colidem. A prisão de Cunha não terá resultados imediatos. É óbvio que ele irá delatar, já que não pretende ver mulher e filha presas, nem passar o resto da vida na prisão.
Resta saber o que ele está disposto a contar. Sua prisão foi vista como preâmbulo à de Lula, o que não é necessariamente verdade. A situação de Lula envolve outro roteiro, cujo timing só a Força Tarefa conhece, mas cujo conteúdo foi antecipado na célebre entrevista dos procuradores, há um mês.
Lula foi considerado chefe da organização criminosa que promoveu o assalto à Petrobras e a outras estatais em mais de duas décadas de exercício do poder. Cunha é peixe pequeno diante disso. O que têm em comum é uma conversa agendada com o juiz Sérgio Moro, em que o veículo disponível é um camburão. Cunha já foi.