Desde a Proclamação da República tentamos nos constituir como um Estado Laico. Ele é sempre o maior garantidor da liberdade religiosa e do direito inalienável de crença e de não-crença. O legado religioso, de todas as denominações, lastreia nossa cultura. Somos tributários da espiritualidade nativa, africana, europeia, oriental.
O papa atual, que se identifica como alguém que veio do "sul longínquo", se assina "bispo de Roma". Ele está querendo, franciscanamente, colocar-se como um a mais no governo colegiado que tenta implementar em sua igreja, a despeito da resistência conservadora de muitos na Cúria Romana. 
Isso tudo nos confirma a relatividade das religiões, por mais que elas se acreditem portadoras de verdades absolutas, o que é legítimo. Mas se todas o são, quem somos nós, seres limitados, para determinar qual a mais perfeita?  O Dalai Lama lembra sempre que a "melhor religião é aquela que não se julga superior a nenhuma outra".
Por isso, quando surgem afirmações de intolerância explícita é preciso reagir. Seus autores as renegarem como "coisa do passado juvenil" só seria crível se acompanhado de uma sincera autocrítica.
D. Helder Câmara, ao contrário, jamais escondeu seu passado integralista. Dele fez a crítica ao vincular-se, nos anos 1940 do século passado, ao "humanismo integral" de Jacques Maritain, junto com Alceu de Amoroso Lima. Não foi uma mudança de ocasião, mas de convencimento.  Disse ele, à época: "transformar o regime social para dignificar os oprimidos pressupõe uma fecunda reforma interior, e não uma imposição do Estado". Mais tarde, às vésperas da guerra fria, teve a coragem de dizer que "era farisaísmo julgar que os burgueses representavam a ordem e a virtude e os comunistas encarnavam a desordem, o desequilíbrio e o desencadeamento das forças do mal".
Melhor nos inspirarmos em figuras como D. Helder do que acreditarmos em autoproclamados religiosos que, às vezes, creem mais no Deus do Dinheiro/Poder. A propósito, Cunha vivia relembrando sua condição de evangélico...