Corruptores e corruptos não registram seus negócios em cartório, não emitem recibos. Tentam não deixar vestígios. Buscam o crime perfeito. Mas quando as investigações se aproximam dos que se consideram incomuns e, portanto, autorizados a surfar acima da lei, não raro eles tropeçam em suas próprias pegadas.
Denunciado por corrupção ativa e passiva, tendo como objetos o tríplex do Guarujá e a guarda de bens paga pela empreiteira OAS, Lula foi apontado como "comandante máximo da organização criminosa" pelos promotores da Lava-Jato. Isso exposto em uma peça de 149 páginas que detalha os meandros da institucionalização da corrupção sob a batuta de Lula.
Lula, é claro, reagiu. Trocou a verve e a indignação de "jararaca" pelo tom emocional e o choro, mais apropriados para o papel de vítima. Mas, como não rebateu as acusações e muito menos se dispôs a responder perguntas de jornalistas, não conseguiu remover nem uma lasquinha da lama agarrada a seus pés. Insistiu que não há provas contra ele e que o tríplex do Guarujá não é de sua propriedade.
Nada falou sobre a milionária troca de favores entre ele e empreiteiros, sobre a compra de partidos políticos com percentuais afanados nas operações da Petrobras, sobre o suborno de políticos no Congresso Nacional, sobre o financiamento de campanhas do PT e de partidos aliados. Nada.
A saída, jurídica e política, é dizer sempre que tudo faz parte de uma grande conspiração contra o metalúrgico que veio da pobreza, penalizado pela "elite conservadora" por sua obra no combate à miséria.
Sem registro em cartório e recibo, a corrupção vem à tona no detalhe. Na troca de favores de pequena monta, naquele mimo para agradar o chefe ou, melhor ainda, a mulher dele. Seja na aquisição de um carro zero, na reforma de apartamento, na compra de cozinhas modulares e até mesmo de pedalinhos baratinhos.
Trocados perto dos bilhões afanados. Mas é exatamente aqui, na satisfação de pequenos luxos, que os que se consideram intocáveis se esborracham. O Lula que agora chora sabe bem disso.