Manhã fria, saí de casa com muito sono para ir trabalhar, querendo muito esquentar um pouco mais a minha cama. Sem reclamar, já que não ia mudar o que estava sentindo, fui me arrastando até a estação de Suzano.
Não prestava muita atenção ao meu redor, só desejava arrumar um lugar para sentar e cochilar. O trem chega e nada de banco vazio para satisfazer o meu desejo. Em pé, sem poder dormir, saco meu celular do bolso e começo a digitar. Troco de trem em Guaianases e parto para a segunda viagem até a Luz, com a mesma letargia.
Foi no terceiro trecho que algo despertou finalmente minha atenção. Na Linha Azul, indo para meu destino final, um rapaz jovem ao meu lado começa um diálogo pelo celular, num tom de voz que seria impossível alguém não ouvir. A conversa era sobre separação.
O argumento desesperado que não houve traição, que ao ficar com uma outra pessoa já estavam separados e que não haveria mais volta. Falava alto em vários momentos sobre a dor de estar ao lado de alguém que não reconhecia seu amor, mesmo quando em desespero chorou ao seu lado e não houve um consolo, um gesto de carinho. Disse que a pessoa era fria e arrependimentos não fariam a situação ser alterada.
Percebi que pouco se importava com os olhares diversos que caíam sobre ele, pois ali, naquele momento, todos naquele vagão estávamos ansiosos pelo desfecho daquele drama que muitos de nós já vivenciamos: o fim de uma relação.
Não importa de que lado estejamos, separações sempre serão estranhas, mesmo que saibamos que é para melhor. Coincidentemente, ele se preparou para descer na mesma estação que eu. Até que houve uma pergunta: "Ele está com febre? Você já o medicou"? Filhos, sempre eles. Desarmam qualquer rusga ou briga que possa haver.
Percebi que seu semblante mudou, olhos ficaram marejados quando enfim soltou: "Nunca o desampararei, seja feliz. Um beijo".
Descemos praticamente juntos, subimos as escadas, ele seguiu seu trajeto quando o vi ainda enxugando seus olhos discretamente depois de ter aberto sua vida para todos nós, ali naquele vagão.