Mais do que a derrota do PT nas urnas, o resultado das eleições municipais deste ano demonstrou a descrença do eleitorado com a política brasileira. É o que avalia o sociólogo Afonso Pola, que classifica o fato como "uma perda para a democracia".
Embora a legenda (PT) tenha reduzido significativamente sua representatividade com redução de prefeituras e também de cadeiras no legislativo, em todo o País, o grande número de abstenções, além de votos nulos e brancos, tanto no primeiro turno quanto no segundo, somado ao perfil da maioria dos candidatos eleitos representa uma perda para todas as instituições políticas.
Isso porque, segundo Pola, em muitos casos a vitória do candidato se deu não por causa do partido a qual é filiado, mas sim pelo discurso antipolítico adotado durante a campanha. "A eleição do João Doria (PSDB) em São Paulo, por exemplo, tem muito mais a ver com seu discurso de que não era político do que com a própria ideologia partidária. O mesmo ocorreu no Rio de Janeiro com a vitória do bispo Marcelo Crivella (PRB) que traz uma referência muito mais religiosa, e até mesmo em Mogi das Cruzes, onde Marcus Melo (PSDB) que nunca foi político sempre se posicionou como gestor".
A mesma linha de raciocínio é seguida pelo presidente do PT de Mogi, Rodrigo Valverde. "A gente vê pelo resultado que quem ganhou foi aquele que negou ser político. E quando há uma rejeição política por parte da população, isso é preocupante, não apenas para o PT, mas para todos os demais, porque deixa clara a descrença do eleitor".
Além de ter reduzido o número de candidatos eleitos, para o PT, estas eleições foram marcadas por um grande número de desfiliações. Isso porque muitos políticos que até então usavam a sigla até como "nome de guerra" e se apresentavam como defensores das ideologias do mesmo, decidiram mudar a legenda para disputar o pleito.
Para Pola, este fator pode ser explicado principalmente pelo mau momento vivenciado pela sigla em função de alguns pontos como a crise econômica que o País enfrenta, o impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT), além de inúmeras denúncias envolvendo o ex-presidente Lula, réu em dois processos da Operação Lava Jato. "O PT era um partido que vinha se fortalecendo e isso serviu de atrativo para muitos políticos que até nem compartilhavam da mesma ideologia. A partir do momento que a legenda foi se desgastando, e isso começou em 2014, ela passou a ser considerada um peso. Então da mesma forma que antes ela era positiva, quando começaram os ataques contra ela, tornou-se algo negativo, porque não é mais vantajoso ser associado a ele. Trata-se de projeto pessoal, então muda-se para outro".
Tal atitude, adotada inclusive por eleitos da região, é descriminada por Valverde. "Quando você escolhe um partido é porque você acredita naquele projeto e naquela ideologia", concluiu.