Nos últimos anos, as plataformas digitais invadiram o cotidiano escolar com a promessa de modernizar o ensino e aproximar os estudantes da tecnologia. Alura, Matific, Leia, Elefante Letrado, Redação Paulista, Speak e tantas outras passaram a ocupar espaço nas aulas, nos planejamentos e, principalmente, nas cobranças feitas a professores e alunos. Porém, por trás dos gráficos coloridos e metas de acesso, surge uma pergunta constante: essas plataformas realmente ajudam na aprendizagem ou apenas mascaram problemas antigos da educação?
A tecnologia, por si só, não é o problema. Quando usada de forma consciente, pode enriquecer as aulas e ampliar possibilidades. A dificuldade começa quando a plataforma deixa de ser ferramenta e passa a ser finalidade. Em muitas escolas, o foco já não está no aprendizado, mas nos índices de acesso, nas porcentagens e nos relatórios enviados às diretorias. O aluno, muitas vezes, deixa de aprender para apenas “cumprir tarefas”.
Outro ponto importante é a distância entre a realidade dos estudantes e as exigências feitas pelas plataformas. Nem todos possuem internet de qualidade, equipamentos adequados ou domínio das ferramentas digitais. Há alunos com dificuldades básicas de leitura sendo pressionados a realizar atividades extensas e pouco atrativas. O resultado aparece nos baixos índices de participação e no desinteresse crescente.
Também é necessário ouvir os próprios estudantes. Muitos relatam cansaço, excesso de telas e dificuldade em encontrar sentido nas atividades propostas. A escola, construída historicamente pelo diálogo e pela convivência, corre o risco de substituir relações humanas por números e relatórios automáticos. Nenhuma plataforma substitui o olhar atento do professor ou a explicação adaptada à realidade da turma.
A discussão, portanto, não deve ser contra a tecnologia, mas contra o uso superficial e impositivo dela. Educação não pode se resumir a metas digitais. Antes de cobrar acessos e resultados, talvez seja necessário perguntar: nossos estudantes estão realmente aprendendo ou apenas clicando?
Antonio Carlos da Silva é professor da rede pública, pesquisador e escritor