Pode parecer óbvio a resposta ao título deste artigo, mas ao ouvir essa pergunta de uma paciente na clínica psicanalítica, desesperada com o novo ciclo do ano, me fez refletir e aprender bastante com essa inquietação, disfarçada de insignificante, mas totalmente profunda. A analisando tem razão. Ao associarmos o “ano novo” a ideias prontas como mesa farta, felicidade garantida, prosperidade e “saúde para dar e vender”, acabamos produzindo uma massa de pessoas neuróticas e frustradas. 

Isso acontece porque essas expectativas não estão sob nosso controle. Para muitas pessoas, o início de um novo ciclo não representa esperança, mas medo. Não há futuro claramente visualizável quando faltam condições mínimas no presente. Vivemos em uma cultura que impõe um ideal de felicidade obrigatória nas datas simbólicas. Quem não celebra, se sente deslocado, quem não consegue planejar, sente-se fracassado. No entanto, é fundamental lembrar que cada sujeito é único, atravessado por uma história singular, por limites concretos e por fases distintas da vida. Comparações generalizadas apenas intensificam a angústia.

Talvez o movimento mais saudável não seja o de projetar grandes expectativas, mas o de realizar um balanço honesto: reconhecer derrotas, valorizar conquistas possíveis, identificar o que pode ser mudado. Pensar em pequenos ajustes e em atitudes mais realistas, oferece um exercício de reposicionamento diante do mundo. Mais do que esperar por um “ano novo”, é preciso apostar em atitudes novas. Mudanças simbólicas, quando não sustentadas por ações concretas, tendem a se esvaziar rapidamente. 

No fundo, o chamado “ano novo” é apenas uma troca de numeração: 31 de dezembro de 2025 se transforma em 1º de janeiro de 2026. O tempo segue. O calendário vira. Só isso! O verdadeiro “ano novo” acontece quando o sujeito se autoriza a viver seu tempo, sem a tirania da coletividade social, pois não é o ano que precisa ser novo, mas a forma como nos colocamos diante da vida.


Marcelo Barbosa é jornalista, pedagogo e psicanalista. Autor da trilogia “Favela no divã” e “A vida de cão do Requis”.