O ministro da Justiça, Sérgio Moro, avisou que deixará o governo após o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) comunicá-lo que trocará o comando da Polícia Federal, atualmente ocupada por Maurício Valeixo. É a segunda vez que o presidente ameaça impor um novo nome na cúpula da corporação.
Valeixo foi escolhido por Moro para o cargo no início do ano passado. O delegado comandou a Diretoria de Combate do Crime Organizado (Dicor) da PF e foi superintendente da corporação no Paraná, responsável pela Lava Jato, até ser convidado pelo ministro, ex-juiz da Operação, para assumir a diretoria-geral.
Embora a indicação para o comando da PF seja uma atribuição do presidente, tradicionalmente é o ministro da Justiça quem escolhe.
Interlocutores de Valeixo dizem que a tentativa de substituí-lo ocorre desde o início do ano, mas que não teria relação com o que aconteceu no ano passado, quando Bolsonaro tentou pela primeira vez trocá-lo por outro nome. Na ocasião, o presidente teve de recuar diante da repercussão negativa que a interferência no órgão de investigação poderia gerar.
Aliados de Moro afirmaram ao Estado que o ministro não vai aceitar a troca de Valeixo nas condições que o presidente está colocando, de "cima para baixo".
De acordo com informações publicadas na noite de ontem pelo UOL, Bolsonaro até já teria definido o substituto de Valeixo na PF. Seu indicado é o atual diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), o delegado Alexandre Ramagem, nome não aprovado por Moro.
No ano passado, após Bolsonaro antecipar a saída do superintendente da corporação no Rio de Janeiro, ministro e presidente travaram uma queda de braço pelo comando da PF.
Em agosto, o presidente antecipou o anúncio da saída de Ricardo Saadi do cargo, justificando que seria uma mudança por "produtividade" e que haveria "problemas" na superintendência. A declaração surpreendeu a cúpula da PF que, horas depois, em nota, contradisse o presidente ao afirmar que a substituição já estava planejada e não tinha "qualquer relação com desempenho".
Nos dias seguintes, Bolsonaro subiu o tom. Declarou que "quem manda é ele" e que, se quisesse, poderia trocar o diretor-geral da PF, Maurício Valeixo.
Na noite de ontem, durante a transmissão de vídeo semanal no Facebook, Bolsonaro não mostrou nenhum indício de que pretendia acalmar os ânimos. O presidente apareceu na live ao lado do presidente da Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães, e falou somente sobre o pagamento do auxílio emergencial e dos impactos na atividade econômica causados pela pandemia da Covid-19.
Bolsonaro não fez nenhuma referência ao nome de Sergio Moro e não comentou sobre sua reunião com o ministro no período da manhã. Enquanto isso, os ministros da área militar concentravam esforços pela manutenção de Moro na Justiça, julgando a sua saída como amplamente desastrosa para o atual governo. Até o fechamento desta edição, oficialmente, Sergio Moro seguia ministro.