Não me lembro quando nasceu, talvez pelo fato da diferença de idade ser pequena. Confesso o incomodo, à época, de ter uma pessoa que sempre queria o que eu tinha, como também aquele que não desgrudava de mim e que me acompanhava em todos os lugares. Após xingamentos e pequenos "tapas", aos prantos, se afastava, porém, minutos depois, lá estava ele ao meu lado. Brincávamos juntos e, em nossas travessuras, era meu cúmplice.
Quando pegos, ambos éramos repreendidos. Eu com maior intensidade, pois era mais velho e o autor intelectual. Sempre empenhado, mesmo em tenra idade, vendendo "geladinho" na porta da escola, conseguiu comprar sua primeira bicicleta. Frequentamos, sempre juntos, as mesmas escolas, a mesma academia de caratê e os mesmos ambientes de diversão.
O tempo passou e o momento de escolher uma profissão chegou. Então, aos 16 anos, ingressei na Academia de Policia Militar do Barro Branco, local em que, um ano após, o recebia na condição de calouro. Trabalhamos na mesma unidade policial, onde, ao invés de travessuras, planejávamos posturas que pudessem melhorar o serviço e sua prestação à comunidade, a quem se dedicou quase com o sacrifício de sua própria vida, quando, numa ação policial, acabou sendo alvejado.
O incomodo do passado deu lugar à satisfação e ao orgulho de estar sempre junto. Zeloso pai de dois maravilhosos filhos e atencioso marido de uma dedicada esposa, construiu uma carreira brilhante, ocupando postos importantes na instituição e, finalmente, comandando a unidade da cidade em que nascemos, Mogi das Cruzes, até então sob minha gestão, tendo eu, perante nosso pais, a honra de empossá-lo. Guardando a fé, combateu o bom combate e, há dois dias, ingressou, como eu, no rol dos veteranos das forças policiais. Coronel PM Ary Kamiyama, meu irmão de sangue, de farda, meu irmão camarada, sucesso nessa nova fase em sua vida. Hoje, nossas fotos perfilam lado a lado na galeria dos eternos comandantes do 17º BPM/M, sacramentando a nossa eterna união.