O som do violino chamava à atenção! Aproximei-me do velho senhor, que há tanto tempo enfeita as cercanias da Sé. Sentado em seu banquinho, desfila cd's sem grifes em um antigo aparelho. Vez ou outra vende algum!
Rosto conformado, sujeição refletida no semblante sofrido, reclamou da crise, que lhe afeta os já minguados ganhos. Andei ainda um pouco. Veio, com seus andrajos, passos sem cadência, uma espécie de colchonete, que dado o seu valor, trazia atado ao corpo, o morador de rua. Ao seu lado, companheiro de infortúnio, mas fiel na desgraça, como para alentá-lo com sua natural alegria, um maltratado cachorrinho.
Outra pequena caminhada. Ao sol do meio dia, alheio aos transeuntes, um garoto deitado na calçada! Ele que, desprezado pelo Estado, nascido em berço paupérrimo, ocupante de posição inferior neste país de castas; o que aprendeu desde cedo a conviver com a violência, enfrentar as mazelas da vida, dormitava! Quem sabe sob o efeito da cola de sapateiro, que usa como lenitivo à inevitável fome, nada mais lhe importava que entregar-se ao descanso libertador, aquele que leva às distantes paragens do irreal.
Sonhava com o beijo amoroso da mãe que não teve? Imaginava-se no aconchego daqueles que não mais vê, no imaginário Natal que não virá? Sei lá! Acho que tinha uns doze anos.
Deparei ainda com outros enjeitados, reunidos ao pé da igreja que domina o local! Talvez procurassem, na proximidade com a imagem do Criador, bênçãos poderosas que aliviassem o eterno sofrer, e os fizessem, de novo, os humanos que já foram.Fiéis, deixando o templo, num misto de contemplação e desafogo, sequer lhes dirigiam o olhar!
Enojado de mim mesmo por permitir tanta iniquidade, voltei ao meu lar! No carro, o rádio gritava os bilhões que levaram da pátria no afã de se comprar consciências para se manter no topo de efêmero poder político. Nesse contexto, o povo, a miséria, a fome, a agonia social, são meros detalhes!
Será Deus, realmente, brasileiro?