O filósofo franco-argelino, Albert Camus (1913-1960), disse certa vez que "Tudo quanto sei, com maior certeza sobre a moral e as obrigações dos homens, devo-o ao futebol". Passado mais de meio século desde sua morte, Camus continua atual em várias linhas de pensamento, mas quando direcionamos suas ideias para o Brasil, vemos que ele está mais atual do que nunca.
Camus já esteve no país certa vez, e soube muito bem do que estava falando quando atrelou a moralidade dos homens ao esporte bretão. Já em outro campo acadêmico, o sociólogo brasileiro Gabriel Cohn, proferiu a seguinte frase. "Sociólogo no Brasil que não tiver os fundilhos das calças puídas pelas arquibancadas não entenderá este país". Somente essa citação já é o bastante para saber que Cohn entende muito bem do que está falando.
Ambos os pensadores servem de pano de fundo para tentar entender o porquê de o brasileiro conseguir se irritar tão profundamente com um time de futebol, mas não ter a mesma reação quando os governos, nas três esferas administravas - incluído aí os legislativos -, cometem injustiças.
Na partida entre Ponte Preta e Vitória, ocorrida anteontem, em Campinas, o time da casa ganhava de 2 a 0, mas acabou cedendo a virada. Na ocasião, a Ponte precisava de um resultado positivo para manter as chances de continuar na elite do futebol, entretanto, como perdeu, acabou carimbando o passaporte para a Série B do Campeonato Brasileiro.
A reação da torcida não poderia ser pior. Após o jogo os torcedores invadiram o campo e tumultuaram o local. Foi preciso intervenção da Polícia Militar para que o ímpeto de alguns fosse contido. Mas no final de tudo, era apenas um jogo de futebol, na manhã seguinte todos tiveram que sair de casa para trabalhar, estudar e continuar suas vidas.
Evidente que jamais apoiaremos a violência, acreditamos no diálogo democrático, porém são raras as vezes que vemos uma parcela da população tomada pela cólera quando o assunto é política. No máximo são xingamentos nas redes sociais. Talvez precisamos ler mais Camus e Cohn.