Todos almejam ter um bicho de estimação. De preferência doméstico, carente, pacato, obediente. Incluir o gato é arriscado! Quem não se relaciona bem com o próprio subconsciente não transa gato. Aí ele aparece como ameaça, porque representa essa relação precária do homem com seu próprio mistério.
Gato não satisfaz as exigências doentias do amor, só as saudáveis! Gatos são bichos polêmicos sem o querer, porque nobres, esguios: hábeis em independência e altivez! Talvez por isso muito pode ser dito, em prosa e verso, sobre a gata preta - Chanel - que enche de sabor e saber nosso relacionamento. Lição de vida: completa, diária, silenciosa, educada, sem veemências!
Lembrei, então, de dizer, da Chanel, o que a vivência consolidada de mais de quinze meses, me deu. A gata é uma lição diária de verdadeiro e fiel afeto. Suas manifestações são íntimas e profundas. Em toda natureza ninguém aprendeu a bastar-se, até na higiene, a si mesmo, como ela! Exige recolhimento, entrega, atenção. Desatentos não a agradam. Buliçosos a irritam. Tudo que precise de promoção ou pedido requer explicação. Vive do verdadeiro e não da ilusão do aparente. Lição de musculação e de sono, ela me ensina a riqueza do respirar reiki, ao ser acariciada.
A gata me devolve a exata medida da relação que dela parte. A gata é zen. E não é que ela conhece o segredo da não-ação, que não é inação! Nada pede, a quem não a quer. Exigente com quem ama, mas só depois de muito reclamar. A gata não pede amor, nem depende dele, mas, quando o sente, é capaz de muito amar. Amor discreto, sem derrames!
A gata é atenta ouvinte do movimento larghetto de boa sinfonia, à disposição de quem o queira perceber. Sábia ouvinte, me devolve interrogações medrosas esperando que se encontre o caminho na sua busca, em lugar de o querer preparado, já conhecido e trilhado. Aí, nada é mais incômodo que o silencioso bastar-se do bicho: o só pedir a quem ela ama! O só amar a quem a merece, com toda denguice de se saborear.