Sem dúvida, o resultado da votação de anteontem na Câmara dos Deputados foi uma vitória e tanto para o presidente Michel Temer. Ainda que ele afirme não se tratar de uma conquista pessoal, mas do estado democrático de direito, conseguir arquivar uma denúncia tão encorpada e grave de corrupção passiva não é algo simples. Foi, sim, uma vitória sua, mas momentânea, pontual, e é isso que deve preocupar o governo.
Em breve terá que enfrentar mais uma denúncia da Procuradoria-Geral da República, também derivada da conversa com o empresário Joesley Batista, dando conta de que Temer estaria interessado em atrapalhar o andamento das investigações da Operação Lava Jato, quando teria incentivado a continuidade da compra do silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha, preso em Curitiba.
A apreciação do relatório da Comissão de Constituição e Justiça, que rejeitava a acusação contra o presidente, foi conduzida de forma política. Mas, ao mesmo tempo, mostrou a insatisfação até daqueles que integram partidos que dão sustentação a Temer na Câmara. Deputados da sua própria legenda, o PMDB, e também de outras que têm participação ministerial, no caso o PSDB, que ficou literalmente dividido no placar final, e o PSB.
Era fato que aqueles que queriam a continuidade da investigação e dar a autorização para que o presidente fosse julgado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), o que poderia acarretar em seu afastamento, precisavam de um número de votos muito grande, 304, para derrubar o relatório. No final, nem passaram perto disso: de 513 possíveis, conseguiram 227, contra 263 do governo. No entanto, a vitória para Temer foi como um sorriso amarelo, já que na comparação com a votação do processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff na Câmara houve 109 votos a mais. Ou seja, tem muito parlamentar insatisfeito com a situação do País, o que reflete os 81% de rejeição da atual gestão entre os brasileiros.
Sem dúvida, vai impactar na continuidade do governo e nos planos de aprovar medidas que considera importantes no Congresso Nacional, em especial a reforma previdenciária. É um indicativo de que vai ter muito trabalho para conseguir angariar votos. Uma luta que parece difícil de ser vencida.
O clima só piorou depois de quarta-feira. O desafio de Temer vai ser não só melhorar sua popularidade, o que parece quase impossível, embora a economia do País dê mostras de recuperação, como também reconquistar apoio necessário entre deputados e senadores para conseguir terminar o seu mandato.