No reinado de Pedro II houve o "parlamentarismo de imitação": a partir do final dos anos 50 do século XIX, o chefe do gabinete de ministros era escolhido no partido que tinha maioria na Assembleia Geral do Império. Liberais e conservadores, vinculados à lavoura cafeeira escravocrata em expansão, revezaram-se no comando. Grãos de café do mesmo saco: "nada mais parecido com um conservador do que um liberal no poder".
Ganhar as eleições era fácil para os de cima: voto de cabresto, currais eleitorais, fraudes e, em casos extremos, a "fidelidade do cacete". Tudo isso continuou na República presidencialista, com uma breve experiência parlamentarista para reduzir os poderes de Jango, entre 1961 e 1963. O Legislativo, a partir da Constituição de 1988, ganhou ainda mais relevância.
Temer transitou do presidencialismo de cooptação - imposição da "governabilidade", juram os presidentes que fizeram alianças fisiológicas para ter apoio no Congress - para o atual "parlamentarismo de corrupção".
Corrupção institucional. Afinal, liberar R$ 4,1 bilhões em emendas parlamentares de junho para cá, empenhar recursos da ordem de R$ 10 bilhões para obras em redutos eleitorais de aliados, refinanciar dívidas do agronegócio e oferecer cargos no governo é "legal". Na real, é compra de votos que a lei e a moralidade pública incriminam. Derrame de dinheiro público superior ao despendido para Sarney ter cinco anos de mandato e FHC aprovar o direito à reeleição.
No dia 2 de agosto, na Câmara, surgiu uma nova modalidade de ética de ocasião: depois do "rouba mas faz" e do "rouba mas é pela causa", inaugurou-se o "rouba mas é pela estabilidade". Alguns pediram trégua temporal: "rouba, mas investiga depois".
A época é de resistência cidadã e democrática, de que cada um tem que ser capaz. Como versejou João Cabral de Melo Neto (1920-1999), no seu clássico "Morte e Vida Severina", "mais vale lutar com as mãos do que abandoná-las para trás".