Quando um país se envolve na realização de um grande evento, no qual milhões ou bilhões de reais serão investidos, é obrigação do governo pensar como as obras serão benéficas para a sociedade após o acontecimento pontual. É o que chamamos de legado. Caso contrário, vira gasto e não investimento. Um ano após a Olimpíada no Rio de Janeiro, podemos analisar com mais facilidade qual foi o legado que o evento esportivo, que beirou os R$ 40 bilhões, deixou para a população, atletas participantes, aspirantes e futuros: quase nenhum.
Começando pelo âmbito esportivo, não demos nenhum salto de desempenho nas competições que sucederam a competição do Rio de Janeiro. Sobre aumento de incentivo, atletas como Arthur Nory - bronze no solo na modalidade ginástica artística -, continua treinando seis horas por dia no Clube Pinheiros, na capital paulista, morando na mesma casa, estudando educação física à noite e sem patrocínio individual - exatamente o mesmo quadro em que se encontrava antes dos Jogos. Outro exemplo é Thiago Braz, recordista olímpico de salto com vara: ele tinha dois patrocinadores individuais e assim continua após sua conquista.
Os casos desses atletas ainda são os menos drásticos, já que existem mecanismos para esses "heróis", que conseguem mesmo sem grandes incentivos chegar ao topo. Bolsas do governo e ajuda dos clubes auxiliam esses profissionais. O maior problema, no entanto, foi a Olimpíada não ter conseguido incentivar a prática esportiva entre crianças e adolescentes.
Não adianta construir estruturas belíssimas para receber atletas do mundo todo e achar que isso será um legado. Funcionaria melhor se houvesse incentivo da prática esportiva nas escolas e, posteriormente, nas universidades. Aqui no Brasil se trabalha com "galinhas dos ovos de ouro". A cada ciclo de competidores, temos sempre um ou dois atletas de cada modalidade individual (no máximo) com condições de disputar medalha. Se caso esses atletas se contundirem ou não alcançaram índice olímpico, não temos outros com o mesmo potencial para representar o Brasil.
O governo esperava que o aumento da procura por modalidades olímpicas partisse das crianças e adolescentes? Mero engano. O incentivo tem que partir do governo. Por isso, o que temos hoje no Rio são estruturas abandonadas ou que recebem, com muito esforço, pequenas competições. Para variar, nossas autoridades pensaram errado. Ou estavam preocupados com assuntos "mais importantes" durante o preparativo da Olimpíada, como o quanto de dinheiro caberia em cada bolso.