Depois de tanta turbulência nas última semanas, a cena política em Brasília agora fica em compasso de espera. O recesso parlamentar será apenas para a retomada do fôlego, já que o retorno em agosto trará grandes discussões novamente, principalmente em relação à votação do relatório da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados sobre a denúncia de corrupção passiva contra o presidente Michel Temer, cujo parecer aponta para a rejeição e o arquivamento da acusação feita pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot.
A tensão prevista certamente se concretizará. Se só na votação na CCJ o tumulto foi grande, no plenário da Câmara os nervos ficarão à flor da pele, principalmente daqueles que são a favor da denúncia e querem que seja autorizado o julgamento do presidente no Supremo Tribunal Federal (STF). Serão necessários 342 votos.
A confusão na CCJ surgiu por causa da inversão de jogo que conseguiu o governo. O relatório original do deputado Sérgio Zveiter (PMDB-RJ) indicava o acolhimento da denúncia, mas acabou sendo rejeitado pela maioria. No mesmo dia, os deputados favoráveis a Temer apresentaram outro relatório que não acata a acusação. Este sim foi aprovado e irá a plenário para ser lido e votado, ao que tudo indica, no próximo dia 2.
Chamou a atenção a manobra. Para conseguir ver o relatório original reprovado na CCJ, Temer e partidos aliados comandaram uma verdadeira troca de cadeiras, retirando deputados que poderiam não votar como queriam e colocando no lugar suplentes mais alinhados à vontade do presidente. Ao todo, foram 17 parlamentares. E o mais surpreendente foi o custo dessas mudanças: R$ 157 milhões. O valor foi ou será pago por meio de liberação de emendas e votação de projetos que estavam represados.
Há quem compare o ocorrido a episódios do passado recente, como o da cooptação de deputados e senadores para aprovação do proposta do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), em 1998, de autorizar a reeleição em mandato no Executivo e o do mensalão no governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), até então o maior escândalo de corrupção que o Brasil já teve, com a compra de parlamentares com dinheiro público para votarem a favor de projetos do governo petista.
Não é difícil prever que o que vem por aí vai mergulhar o Congresso Nacional em um debate cujo final ninguém sabe qual será. O que se quer é que o País não pare e que questões primordiais não sejam deixadas de lado.