Um empresário "dois em um" - assumidamente corrompido e corruptor - está revelando em detalhes a gangsterização da política no Brasil. Sua metralhadora giratória, que dispara verdades documentadas e mentiras discursivas, evidencia um esquema criminoso de favorecimentos e propinas em "estados, ministérios, fundos de pensão, bancos e BNDES".
Joesley Batista garante que "o estado brasileiro está dominado por organizações criminosas, muitas das quais participamos e tivemos que financiar". Mais direto impossível.
Haveria um desdobramento natural desse tsunami político: os acusados que juram inocência deveriam processar o empresário por calúnia, de imediato, como Temer faz agora. Mas é estranhíssimo que não o tenha feito antes, quando da revelação da sua conversinha com Joesley na calada da noite do Jaburu, há três meses. Aliás, é também inusitado que ele tenha recebido com presteza quem considera um "bandido notório". O fato do dono da holding J&S ter o "maior sucesso na história brasileira" abre portas palacianas?
Por óbvio, a Câmara dos Deputados, em recebendo o pedido de investigação sobre o presidente da República, fica na obrigação de autorizá-lo. Quem não aprovar essa medida elementar, por omissão ou voto contrário, terá seu nome parlamentar carimbado como leniente com o acobertamento de denúncias gravíssimas que enlameiam a República. Quem alardeia honestidade não devia ficar em apuros. Teria que aceitar e mesmo desejar a apuração de tudo.
O que dá mais concretude à trágica gangsterização da política é a atitude dos partidos que têm parlamentares e dirigentes investigados ou réus. Via de regra, fazem "cara de paisagem". Todos têm princípios éticos em seus estatutos e comissões para zelar por eles.
Esse silêncio partidário é revelador de que a corrupção que praticaram não era uma conduta inadequada de A ou B, mas algo derivado do próprio modus operandi da agremiação. Com raras exceções, elas adotaram servidão voluntária ao poder dissolvente do dinheiro.