O prefeito paulistano João Doria começa a tropeçar na própria língua. Cotado como presidenciável, o tucano chamou de vagabundos aqueles que aderiram à greve.
Assiste os índices de mortes por acidentes explodir nas Marginais da capital após o aumento da velocidade. Jogou pela janela de seu carro flores que segundos antes havia recebido com seu sorriso televisivo. As flores, oferecida por uma ciclista era uma homenagem aos mortos nas Marginais. O prefeito irritado lançou na rua o ramalhete.
Continua com seu discurso raivoso contra Lula. Doria demonstrou ser inábil quando confrontado de surpresa e sem um prévio roteiro. Prefeitura não é a empresa e o protesto inteligente da ciclista revelou a falta de traquejo político.
Chamar grevistas de vagabundos foi outra pérola. Doria é um executivo bem sucedido que, como qualquer outro, vive do trabalho de centenas de empregados que tem em seu salário e aposentadoria a única fonte de renda. Quem não é empresário e depende de sua força de trabalho para sobreviver só dispõe da greve como instrumento de pressão, negando-se a entregar a única coisa de valor que possui, sua força de trabalho. A greve é um instrumento legítimo e amparado por lei e quem o exerce não é vagabundo.
O Brasil assiste à maior precarização das condições de trabalho já vista. A terceirização é um desastre, a grande maioria das empresas terceirizadas não tem patrimônio para responder por suas obrigações trabalhistas. A Consolidação das Leis do Trabalho só recebeu alterações que beneficiam os empregadores e a reforma da Previdência será um tiro de misericórdia nos segurados.
Doria precisa lidar com sua vaidade e entender que os bajuladores que o cercam não o farão crescer politicamente. Ele é prefeito e não uma unanimidade. Rever os limites de velocidade nas Marginais, longe de ser um vexame, pode ser ato de um bom gestor, afinal, as vidas lá ceifadas valem muito mais do que agradar meia dúzia de pilotos. Desacelera Doria, São Paulo não é um autódromo.