O aguardado depoimento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao juiz federal da Lava Jato, Sérgio Moro, já está ganhando contornos preocupantes de um evento político-partidário, que poderá suscitar um embate com o acirramento dos ânimos de ambos os lados, apoiadores e críticos do petista.
Cogitar ir até Curitiba amanhã, onde os intimados ou conduzidos a depor se encontram frente a frente com o magistrado, pode ser considerado um ato arriscado. Parece que nem mesmo o vídeo gravado por Moro vai conseguir dissuadir os entusiastas de promoverem seus protestos na sede da Justiça Federal da capital paranaense. A própria Polícia Federal já está tomando medidas para evitar o pior, principalmente isolar o perímetro e os acessos.
Uma convocação pró-Lula foi feita e muita gente com tempo livre deve se dirigir até Curitiba. Na prática, do que vai adiantar? É mais uma etapa burocrática do processo liderado por Moro. Se o ex-presidente tem algo a dizer, e os indícios fortes mostram que realmente tem, há que se cumprir a determinação e ponto final.
Primeiro, ele tentou fazer com que não precisasse ir até lá e que no lugar fosse feita uma vídeo-conferência. Negado. Depois seus advogados queriam gravar a audiência, algo que é vetado a todos os ouvidos pelo juiz. Negado. Claro, por que haveria de ser feita exceção? Para amainar a revolta dos advogados de Lula, Moro afirmou que além da gravação que já faz sob sua perspectiva, haverá uma outra com um ângulo mais aberto, mas realizada pela Justiça Federal, a quem cabe esse expediente única e exclusivamente. Tudo isso está configurando o evento político que se aguarda.
Lula irá prestar depoimento no processo em que é réu acusado de ter recebido propina da empreiteira OAS por meio da reserva e reforma de um tríplex no edifício Solaris, no Guarujá, em 2009. A ação também engloba o armazenamento de bens do ex-presidente depois que ele deixou a Presidência, entre 2011 e 2016. O valor total da vantagem indevida seria de R$ 3,7 milhões, como contrapartida por três contratos entre a OAS e a Petrobras, de acordo com o Ministério Público Federal.
O fato é que se o ex-presidente não tem nada a esconder e que todas as acusações são invencionices, que ele, então, consiga contestar o que vem apontando a força-tarefa da Lava Jato com provas bastante consistentes. Ao contrário do que Lula disse, de que ninguém mais do que ele quer saber da verdade, milhões de pessoas também querem.