Quem não quiser conhecer revelações sobre a trama da série de TV 3%, não deve ler esse texto agora.
A série da Netflix propõe um futuro no qual a sociedade possui uma dinâmica peculiar. Todos devem viver em uma parte miserável do "mundo" até uma certa idade, no início da vida adulta, ao que existirão complexas provas para separar aqueles que viverão na parte "rica" e aqueles que viverão na parte miserável pelo resto de suas vidas.
O modelo proposto elimina qualquer vantagem pela hereditariedade. No "mundo ideal", os habitantes são esterilizados e não podem ter filhos. A ideia é que, todo aquele que nasceu no "mundo miserável" possa alcançar o "mundo ideal" se for aprovado nos testes. Trata-se de igualdade de condições sem qualquer privilégio decorrente de hereditariedade.
Nesse ponto eu concordo. Sempre me incomodei com as vantagens herdadas. Um dos discursos favoráveis ao capitalismo está relacionado com as oportunidades que todos possuiriam para enriquecer e alcançar o "mundo ideal".
O capitalismo seria um jogo em que todos podem jogar e vencer? Isso é uma grande mentira, trata-se de propaganda enganosa para justificar um sistema injusto. Se o capitalismo é uma corrida, uma corrida em que os corredores largam de diferentes posições, alguns bem na frente dos outros, é uma corrida injusta, feita para que os "escolhidos" vençam e os "desafortunados" apenas participem, para perder, é claro.
A forma de equilibrar o jogo é eliminar as vantagens da hereditariedade. Se vamos aceitar a competição e vamos correr a corrida do capitalismo, que larguemos todos do mesmo ponto, que cada um viva com a riqueza obtida durante a sua vida, nada de contar com facilidades trazidas por pais, avós, tios, tias etc.
Se a comparação for com jogos de vídeogame, vamos, então, colocar todos os jogadores no nível "hard". Nada de jogadores no nível "easy", que ainda são cínicos ao ponto de insinuarem que são mais habilidosos do que aqueles que jogam um jogo muito mais difícil.