As cenas de selvageria causadas pela emboscada criada por jogadores, integrantes da comissão técnica e até diretores do Penãrol, para o Palmeiras, na quarta-feira passada, no Estádio Campeón de Siglo, em Montevidéu, são lamentáveis, mas estão longe de serem uma surpresa quando há o enfrentamento entre times sul-americanos. A confusão, na verdade, começou muito antes do jogo, quando o atleta palmeirense Felipe Melo disse em entrevista que, se precisasse, daria tapa na cara de uruguaio. Talvez se um atleta uruguaio tivesse falado o mesmo sobre um brasileiro, nada disso teria acontecido. Não porque o brasileiro reage melhor às provocações, mas pela história de futebol vivida pelos dois países. Mesmo porque, o povo uruguaio é também conhecido pela educação e o alto nível intelectual.
Mas se puxarmos o histórico das duas nações dentro das quatro linhas, vamos perceber cursos diferentes. O futebol brasileiro não precisa da conhecida catimba, já que em nível continental apresenta quase sempre as melhores equipes para a disputa da Libertadores. Diferentemente dos uruguaios, que se utilizam deste artifício para tentarem igualar a competitividade, uma vez que, se dependerem apenas do nível técnico, seus times não chegarão a lugar nenhum.
Mas nem sempre foi assim. Foram justamente os uruguaios que apresentaram o futebol moderno para o mundo, na Olimpíada de 1924, em Paris, na França. Todos ficaram encantados com a técnica, toque de bola e esquema tático proposto pela Celeste, que passeou naquela competição e foi campeã olímpica. O mesmo aconteceu na Olimpíada seguinte, em 1928, e o sucesso continuou nas primeiras quatro disputas em Copas do Mundo (1930/1934/1938/1950). Nessas quatro edições de Mundiais foram dois títulos conquistados.
No entanto, o tempo passou, o futebol se popularizou e o pequeno país de pouco menos de 3,5 milhões de habitantes não conseguiu acompanhar a evolução do futebol pelo mundo, muito menos despontar craques a granel. Então, a única maneira de se equilibrar (mesmo que no fio da navalha) como uma das grandes seleções do mundo foi por meio da força, da raça e da catimba. Esse espírito de "guerreiro" dos uruguaios - que nada tem a ver com o futebol - é uma maneira de dizer: "Respeitem-nos! Somos os primeiros campeões mundiais da história!".
Em contraponto, o futebol brasileiro não precisa disso. Apesar dos obstáculos que aparecem ao longo da história, somos há mais de 60 anos, a principal seleção do mundo.