Ia o ano de 1968. Ditadura pesada, que coibia planos de vida e assassinava sonhos! Entrevados pelas censuras, quaisquer tentativas de se opor verbalmente ao regime era, imediatamente, proibida.Incentivava-nos, as letras das músicas, que, com duplo sentido, vez ou outra, passavam pelo crivo dos imbecis de plantão que, caneta na mão estropiavam, artigos e canções.Na Bienal do Samba, festival acontecido em 1968, Marília Medaglia - que adotou Medalha - célebre pelo "Ponteio" cantado com Edu Lobo, apresentou "Pressentimento".
Com arremedos de grito amoroso, na realidade, a letra protestava claramente! Mulher de Isaias Almada, teatrólogo preso pelos "gorilas" de então que o acusavam de "terrorismo", teve a gravidez abortada pelos sofrimentos do tempo em que não soube do marido. Em seu âmago, o ódio deve ter sido uma constante.
Na canção, quase que em final, ouve-se: "Vem, que o sol raiou, os jardins estão floridos, tudo faz pressentimento que é o tempo ansiado de se ter felicidade!'E nós, os jovens sofridos, nos agarrávamos, à força das palavras e tínhamos, cada um, o "pressentimento" de que, num futuro próximo, o sol raiaria e os tacões deixariam de pesar sobre nós.Anos - quase infindos - depois, ressurgiu um arremedo de democracia, e, agora em conjunto, ganhamos as ruas e vibramos mais que em Copas do Mundo.Veio a dura realidade, no entanto.
Os que alimentaram nossos espíritos de esperanças; aqueles que escolhemos para reger nossos destinos políticos; não eram os melhores! Ao contrário, envoltos pela colcha diáfana da impunidade, dilapidaram o erário; criminosos, despojaram os necessitados em proveitos pessoais.Expostas suas diatribes, se vê o povo, novamente, em momento difícil.
A ditadura da corrupção nos governou e governa; entranhada na sociedade, não tem hora ou vez para acabar! Tempos difíceis que clamam por mudanças.O pior: não temos mais Marília, canções de protesto, e o pressentimento de momentos melhores!Lástima profunda!