Semana retrasada, um cidadão que não conhecia me interpelou na rua: "Tem jeito? Tem saída? O Brasil dos políticos se divide hoje entre os que roubaram e os que ainda não conseguiram roubar. Isso vale para a direita e para a esquerda". Completou com um alerta: "Você e seu partido ainda estão em observação...". Este sentimento de decepção e desconfiança predomina na população brasileira.
Motivos não faltam. O ano legislativo começou com a eleição em 1º turno tanto do presidente do Senado (e do Congresso Nacional) quanto do presidente da Câmara (e vice-presidente da República). Eunício de Oliveira (PMDB/CE) e Rodrigo Maia (DEM/RJ) foram citados em delações da Lava Jato até com codinomes: "Índio" e "Botafogo". Dizem "não perder um segundo de sono com isso" (Eunício) e "ter preocupação zero" (Rodrigo). Eduardo Cunha - antecessor de Maia, que o apoiava - usava essas mesmas expressões.
Muitos votos dos parlamentares em seus pares, para constituir as Mesas Diretores, derivaram de acordos para nomeação de comissionados e indicação de relatorias de projetos - o que dá visibilidade. A autoproteção para eventuais investigados e réus não faltou: vários vencedores, ao falar em "defesa do Parlamento", referiam-se aos mandatos sob suspeição. Por trás da aparente calmaria dos grandes vencedores, o consumo de ansiolíticos se amplia...
Lá se foi o primeiro mês de 2017, com seus sinais nada promissores. Além da morte surpreendente e trágica do então relator da Lava Jato, a tosca e chocante "torcida" de alguns pelo falecimento - também inesperado - da esposa do ex-presidente Lula, o que divergência política alguma justifica. E as febres amarela e da violência ceifando muitas outras vidas.
Talvez como corolário desses tempos dissonantes, a rádio MPB FM do Rio de Janeiro, que só tocava música brasileira, encerrou suas atividades em fevereiro. Até música boa no dial anda rara... Menos mal que Vinícius e Carlinhos Lyra nos socorrem: "E no entanto é preciso cantar/ mais que nunca é preciso cantar/ e alegrar a cidade".