Virou lugar-comum: ou o governo Temer é bem sucedido nas reformas ou será devorado pela Lava Jato. É preciso destrinchar essa afirmação.
Primeiramente, o governo Temer tem um defeito congênito: não foi ungido pelas urnas. E para os que lembram que Michel Temer era o vice de Dilma, vale destacar que, na campanha de sua chapa, nenhuma das propostas que ele tenta implementar foi apresentada à população.
Depois, é necessário examinar o que se entende por "reformas". A palavra tem um conteúdo positivo. Reformar a casa, a estrada, até uma roupa é sempre para melhorar. Mas "reformar" a Previdência sem uma real auditoria nas suas contas, conhecendo seus grandes devedores, e sem esclarecer quanto e como têm sido gastos os recursos superavitários da Seguridade Social é começar muito mal. 
"Reformar" a legislação trabalhista em contexto de gigantesco desemprego, aproveitando-se da fragilização do fator Trabalho é flexibilizar a legislação no exclusivo interesse do patronato.
Nessas mal chamadas "reformas", a retirada de direitos dos "de baixo" é a tônica, e não o combate a privilégios de casta.
O rumo devia ser outro: reforma tributária progressiva, redução dos juros, articulação internacional com novos blocos comerciais, estímulo a arranjos produtivos locais voltados para o mercado interno, garantia de direitos remuneratórios que se refletem na retomada do dinamismo da economia.
Por fim, o que as chamas da Lava Jato devem incinerar, superando os que agem para "estancar sua sangria", é o histórico conluio entre agentes públicos e particulares.
Por isso, as iniciativas desse governo não têm autonomia em relação a ações judiciais que desvendam um esquema estrutural de propinas montado para comprar exatamente essas políticas, em licitações e aditivos fraudados, desonerações, projetos de lei ou emendas.
A dinâmica corrompida de um sistema o constitui. Um governo é sempre reflexo das práticas políticas dos que o integram.