O massacre acontecido em Manaus expõe ainda mais as vísceras de sistema prisional calamitoso, que de há muito é denunciado em prosa e verso. Não se perca de vista, no caso Henrique Pizzolato, os pronunciamentos uniformes dos ministros do Supremo Tribunal Federal a respeito da catástrofe que paira sobre os nossos presídios, amparados por inspeção dos enviados italianos.
Mesmo assim, "as profundas reformas", "os ajustes necessários" e "a humanização dos cárceres" não passam de planos que repousam em gavetas mofadas, ou mote preparado para ocasiões como a acima noticiada. Não causou espécie, assim, as autoridades responsáveis pelo bem-estar prisional virem à cena com seus discursos os mais teratológicos.
O ministro da Justiça, por exemplo, cuidou de atribuir culpa à empresa que, terceirizada, administra o estabelecimento penitencial. Sob sua ótica, os gestores pecaram por permitir a entrada de armas e aparelhos de comunicação no local, sendo indesculpável tal atitude.
Assistiria razão ao inconsequente senhor - afinal, é de se presumir que nas cadeias o aparato de segurança seja suficiente para coibir atitudes irregulares como as relatadas -, não fosse o fato de, no Estado mais rico da federação, onde até ontem ocupava pasta, serem rotineiros atos como os por ele condenados!
Pergunta-se, pois: repousa, efetivamente, nas costas dos gerentes particulares informados a culpa pelo hediondo feito, ou a falta de interesse pelo sistema carcerário -
que só merece atenção quando os morticínios ocorrem - é que leva a tragédias anunciadas? E, para que não ficasse solitário em sua malfadada opinião, veio a socorrê-lo o presidente da República, que de pronto anunciou verba para a construção de mais cinco estabelecimentos penais!
Assim como unicamente a compra de viaturas não coíbe o crime, a construção de prisões, em nada mudará a vergonhosa situação carcerária brasileira. Enquanto isso, outra vez, somos expostos negativamente aos olhos do mundo!