Os cerca de 60 assassinatos ocorridos durante rebelião em um presídio de Manaus causaram um choque e tanto na população brasileira, principalmente em relação à crueldade que ainda é possível testemunhar nos dias de hoje. Não cabe aqui fazer julgamento a respeito das vítimas, até mesmo porque já eram condenadas e estavam pagando suas dívidas com a sociedade e a Justiça. Mas daí a se tornar alvo de uma matança desenfreada originada do conflito entre facções criminosas rivais é algo inaceitável e que deve ser muito bem apurado. Até mesmo porque as responsabilidades começam a ser compartilhadas neste momento, já que a gestão do Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), onde ocorreu o massacre, é realizada por uma empresa privada, a Umanizzare, embora a segurança continuasse a ser de competência da Polícia Militar amazonense.
O fato é que o episódio trouxe muitos assuntos à tona: desde a eficácia e o perigo de se privatizar esse tipo de serviço até indícios de superfaturamento nos repasses. Só no ano passado, a empresa recebeu
R$ 300 milhões para administrar esta e outras quatro unidades prisionais.
O que ocorreu em Manaus reflete o que acontece em todo o País. Evidenciou a problemática que é o sistema penitenciário e o eterno dilema das superlotações. Há mais presos entrando do que saindo, também fruto da falta de uma política diferenciada para esse setor e da lentidão da Justiça. Era uma bomba-relógio que todas as autoridades envolvidas sabiam que estava prestes a explodir. Não à toa o presidente Michel Temer responsabilizou os Estados pela situação dos presídios e também a empresa, em sua primeira manifestação pública sobre o ocorrido, o que ele classificou como "acidente pavoroso".
Embora não se cogite reflexos em São Paulo, nem mesmo nos dois Centros de Detenção Provisória (CDP) do Alto Tietê, em Mogi das Cruzes e Suzano, o assunto volta à pauta da discussão política, ou deveria voltar. E cria toda uma aura em relação ao que pode ocorrer por aqui, ainda que esses presos estejam aguardando decisões da Justiça e não cumprindo penas.
De qualquer maneira, não se pode permitir que uma situação calamitosa em que se encontram essas unidades, já mostrada em reportagens, principalmente em relação à superlotação, degringole para um cenário sem controle. Algum tempo atrás ainda eram registradas rebeliões e até fugas na região, e com um levante do crime organizado tudo pode acontecer. É bom as autoridades ficarem atentas e agirem para evitar algo assim. É o que a população espera.