Tema muito discutido no Brasil na segunda metade do século XX, o debate em torno do processo de concentração de riqueza e renda resultante do avanço do capitalismo perdeu força com a intensificação da globalização. Apresentada como uma característica mais identificada com as chamadas economias periféricas (países com baixo grau de desenvolvimento), tal concentração foi definida por intelectuais de diferentes áreas como cruel e vergonhosa. No caso do Brasil, por exemplo, dados de 1985 indicavam que os 50% mais pobres detinham apenas 13% dos rendimentos, enquanto os 1% mais ricos concentravam 14,4%.
Ainda que de forma muito tímida, esse tema parece recuperar parte da atenção perdida. A Oxfam, ONG britânica de assistência social e combate à pobreza, aproveitou a realização do Fórum Econômico Mundial de Davos onde se reúne a elite política e empresarial de todo o mundo para divulgar um estudo com dados alarmantes. Em todo o mundo, oito empresários possuem a mesma riqueza que os 50% mais pobres que somam 3,6 bilhões de pessoas. São eles: Bill Gates (Microsoft), Amancio Ortega (Inditex), Warren Buffett (Berkshire Hathaway), Carlos Slim (Grupo Carso), Jeff Bezos (Amazon), Mark Zuckerberg (Facebook), Larry Ellison (Oracle), e Michael Bloomberg (Agência Bloomberg).
Segundo a organização, no período que vai de 1988 até 2011, a renda dos 10% mais pobres aumentou, em média, US$ 3 ao ano. Já a renda do 1% mais rico cresceu 182 vezes mais, ou seja US$ 11.800 por ano. Caso o ritmo de concentração se mantenha, podemos ter o primeiro trilionário do mundo em 25 anos.
Dados estatísticos do Credit Suisse confirmam essa tendência e apontam que 2015 ficará marcado como o ano no qual a riqueza de 1% da população mundial alcançou a metade do valor total de ativos, o que significa dizer que apenas 1% tem a mesma riqueza que os outros 99%. Aponta ainda que a Grande Recessão de 2008 acelerou o processo de concentração da riqueza. Com um sistema econômico assim, que mundo estamos construindo para nossos filhos?